uma porta.
ROBERTO CORRA DOS SANTOS
Professor de Teoria da Literatura e de Semiologia do curso
De graduao e de ps-graduao em Letras da UFRJ



















OBRAS DA AUTORA
Perto do corao selvagem, romance
O lustre, romance
A cidade sitiada, romance
A ma no escuro, romance
A paixo segundo G.H., romance
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, romance
gua viva, romance
Um sopro de vida, romance
A hora da estrela, novela
A bela e a fera, contos
Laos de famlia, contos
A legio estrangeira, contos
Felicidade clandestina, contos
Onde estivestes de noite, contos
A via crucis do corpo, contos
De corpo inteiro, entrevistas
Para no esquecer, crnicas
A descoberta do mundo, crnicas
O mistrio do coelho pensante, infantil
A mulher que matou os peixes, infantil
A vida ntima de Laura, infantil
Quase de verdade, infantil
Como nasceram as estrelas, infantil
CLARICE LISPECTOR
A LEGIO ESTRANGEIRA
Contos


1964, by Clarice Lispector,
1978 by Paulo Gurgel Valente e Pedro Gurgel Valente
Estabelecimento do texto
MARLENE GOMES MENDES
(Dra. em Literatura Brasileira pela USP/ProP de Crtica Textual da UFF)


NOTA PRVIA

Todo texto com tradio - tomada a palavra no sentido que a Crtica Textual lhe empresta - tende a apresentar, nas reprodues que dele so feitas, um maior ou menor
nmero de alteraes que vo, desde os erros cometidos por distrao de digita-dores at as "correes" bem intencionadas de revisores ou copidesques. Por isso,
 necessrio que se proceda ao estabelecimento desse texto, procurando, no confronto com as edies publicadas em vida do autor, restituir-lhe sua fidedignidade
e genuinidade.
Clarice Lispector escrevia e reescrevia seus textos, mas no se preocupava em guardar manuscritos e originais, como se pode verificar no arquivo que se encontra
na Fundao Casa de Rui Barbosa, cujo inventrio foi organizado por Eliane Vasconcellos, e publicado em 1994. De toda sua obra ficcional, s restou um original datilografado:
o de gua viva, a propsito do qual fala em carta a Olga Borelli, mostrando como trabalhava exaustivamente o texto: "...No pude te esperar: estava morrendo de cansao,
porque estou trabalhando ininterruptamente desde as cinco da manh. Infelizmente eu  que tenho que fazer a cpia de Atrs do pensamento, sempre fiz a ltima cpia
dos meus livros anteriores porque cada vez que copio vou modificando, acrescentando, mexendo neles, enfim" (grifo nosso).
No entanto, depois de encaminhar o texto  editora, Clarice no se interessava mais por ele, conforme declara em entrevista concedida a Affonso Romano de Sant'Anna
e Marina Colasanti, para o Museu da Imagem e do Som, em 20 de outubro de 1976:
"Affonso - Voc tem os seus textos escritos na cabea. E uma vez voc me disse uma coisa impressionante: voc nunca rel um texto seu.
Clarice - No. Enjo. Quando  publicado,  como livro morto. No quero mais saber dele. E quando eu leio, estranho, acho ruim. A no leio, ora!"
Olga Borelli, grande amiga e companheira de Clarice Lispector, com quem conversamos recentemente, nos assegurou que, de fato, Clarice no revia seus textos depois
que encaminhava os originais  editora.
Assim, no  possvel trabalhar com textos de Clarice Lispector, ignorando-se o fato de que no os revia e, portanto, no fazia mudanas de uma edio para outra.
Inicialmente constitudo de duas partes, A legio estrangeira s teve uma edio em vida da autora, publicada em 1964, pela Editora do Autor. Alguns contos que compem
a primeira parte foram republicados, com modificaes, em Felicidade clandestina, cuja 1- edio  de 1971. Na pgina que precede a segunda parte, intitulada Fundo
de gaveta, l-se:
"Esta segunda parte se chamar, como uma vez me sugeriu o nunca assaz citado Otto Lara Resende, de 'Fundo de gaveta. Mas por que livrar-se do que se amontoa, como
em todas as casas, no fundo das gavetas? Vide Manuel Bandeira: para que ela me encontre com 'a casa limpa, a mesa posta, com cada coisa em seu lugar'. Por que tirar
do fundo da gaveta, por exemplo, 'a pecadora queimada', escrita apenas por diverso, enquanto eu esperava o nascimento do meu primeiro filho? Por que publicar o
que no presta? Porque o que presta tambm no presta. Alm do mais, o que obviamente no presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado,
do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vo e cai sem graa no cho."
Em 1978, esta segunda parte passou a constituir o livro Para no esquecer, publicado pela tica.
Nas edies que se seguiram, incorporaram-se incorrees que procuramos corrigir nesta edio, cuidadosamente confrontada com a primeira.

Marlene Gomes Mendes




Ins Besouchet


SUMRIO

Os desastres de Sofia
A repartio dos pes
A mensagem
Macacos
O ovo e a galinha
Tentao
Viagem a Petrpolis
A soluo
Evoluo de uma miopia
A quinta histria
Uma amizade sincera
Os obedientes
A Legio Estrangeira


OS DESASTRES DE SOFIA

Qualquer que tivesse sido o seu trabalho anterior, ele o abandonara, mudara de profisso, e passara pesadamente a ensinar no curso primrio: era tudo o que sabamos
dele.
O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contrados. Em vez de n na garganta, tinha ombros contrados. Usava palet curto demais, culos sem aro, com
um fio de ouro encimando o nariz grosso e romano. E eu era atrada por ele. No amor, mas atrada pelo seu silncio e pela controlada impacincia que ele tinha em 
nos ensinar e que, ofendida, eu adivinhara. Passei a me comportar mal na sala. Falava muito alto, mexia com os colegas, interrompia a lio com piadinhas, at que 
ele dizia, vermelho:
- Cale-se ou expulso a senhora da sala.
Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Ele no mandava, seno estaria me obedecendo. Mas eu o exasperava tanto que se tornara doloroso para 
mim ser o objeto do dio daquele homem que de certo modo eu amava. No o amava como a mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criana que tenta desastradamente 
proteger um adulto, com a clera de quem ainda no foi covarde e v um homem forte de ombros to curvos. Ele me irritava. De noite, antes de dormir, ele me irritava. 
Eu tinha nove anos e pouco, dura idade como o talo no quebrado de uma begnia. Eu o espicaava, e ao conseguir exacerb-lo sentia na boca, em glria de martrio, 
a acidez insuportvel da begnia quando  esmagada entre os dentes; e roa as unhas, exultante. De manha, ao atravessar os portes da escola, pura como ia com meu 
caf com leite e a cara lavada, era um choque deparar em carne e osso com o homem que me fizera devanear por um abismai minuto antes de dormir. Em superfcie de 
tempo fora um minuto apenas, mas em profundidade eram velhos sculos de escurssima doura. De manh - como se eu no tivesse contado com a existncia real daquele 
que desencadeara meus negros sonhos de amor - de manh, diante do homem grande com seu palet curto, em choque eu era jogada na vergonha, na perplexidade e na assustadora 
esperana. A esperana era o meu pecado maior.
Cada dia renovava-se a mesquinha luta que eu encetara pela salvao daquele homem. Eu queria o seu bem, e em resposta ele me odiava. Contundida, eu me tornara o 
seu demnio e tormento, smbolo do inferno que devia ser para ele ensinar aquela turma risonha de desinteressados. Tornara-se um prazer j terrvel o de no deix-lo 
em paz. O jogo, como sempre, me fascinava. Sem saber que eu obedecia a velhas tradies, mas com uma sabedoria com que os ruins j nascem - aqueles ruins que roem 
as unhas de espanto -, sem saber que obedecia a uma das coisas que mais acontecem no mundo, eu estava sendo a prostituta e ele o santo. No, talvez no seja isso. 
As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se no tomo cuidado ser tarde demais: as coisas sero ditas sem eu as ter dito. Ou, pelo 
menos, no era apenas isso. Meu enleio vem de que um tapete  feito de tantos fios que no posso me resignar a seguir um fio s; meu enredamento vem de que uma histria 
 feita de muitas histrias. E nem todas posso contar - uma palavra mais verdadeira poderia de eco em eco fazer desabar pelo despenhadeiro as minhas altas geleiras. 
Assim, pois, no falarei mais no sorvedouro que havia em mim enquanto eu devaneava antes de adormecer. Seno eu mesma terminarei pensando que era apenas essa macia 
voragem o que me impelia para ele, esquecendo minha desesperada abnegao. Eu me tornara a sua sedutora, dever que ningum me impusera. Era de se lamentar que tivesse 
cado em minhas mos erradas a tarefa de salv-lo pela tentao, pois de todos os adultos e crianas daquele tempo eu era provavelmente a menos indicada. "Essa no 
 flor que se cheire", como dizia nossa empregada. Mas era como se, sozinha com um alpinista paralisado pelo terror do precipcio, eu, por mais inbil que fosse, 
no pudesse seno tentar ajud-lo a descer. O professor tivera a falta de sorte de ter sido logo a mais imprudente quem ficara sozinha com ele nos seus ermos. Por 
mais arriscado que fosse o meu lado, eu era obrigada a arrast-lo para o meu lado, pois o dele era mortal. Era o que eu fazia, como uma criana, importuna puxa um 
grande pela aba do palet. Ele no olhava para trs, no perguntava o que eu queria, e livrava-se de mim com um safano. Eu continuava a pux-lo pelo palet, meu 
nico instrumento era a insistncia. E disso tudo ele s percebia que eu lhe rasgava os bolsos.  verdade que nem eu mesma sabia ao certo o que fazia, minha vida 
com o professor era invisvel. Mas eu sentia que meu papel era ruim e perigoso: impelia-me a voracidade por uma vida real que tardava, e pior que inbil, eu tambm 
tinha gosto em lhe rasgar os bolsos. S Deus perdoaria o que eu era porque s Ele sabia do que me fizera e para o qu. Eu me deixava, pois, ser matria d'Ele. Ser 
matria de Deus era a minha nica bondade. E a fonte de um nascente misticismo. No misticismo por Ele, mas pela matria d'Ele, mas pela vida crua e cheia de prazeres: 
eu era uma adoradora. Aceitava a vastido do que eu no conhecia e a ela me confiava toda, com segredos de confessionrio. Seria para as escurides da ignorncia 
que eu seduzia o professor? e com o ardor de uma freira na cela. Freira alegre e monstruosa, ai de mim. E nem disso eu poderia me vangloriar: na classe todos ns 
ramos igualmente monstruosos e suaves, vida matria de Deus.
Mas se me comoviam seus gordos ombros contrados e seu paletozinho apertado, minhas gargalhadas s conseguiam fazer com que ele, fingindo a que custo me esquecer, 
mais contrado ficasse de tanto autocontrole. A antipatia que esse homem sentia por mim era to forte que eu me detestava. At que meus risos foram definitivamente 
substituindo minha delicadeza impossvel. Aprender eu no aprendia naquelas aulas. O jogo de torn-lo infeliz j me tomara demais. Suportando com desenvolta amargura 
as minhas pernas compridas e os sapatos sempre cambaios, humilhada por no ser uma flor, e sobretudo, torturada por uma infncia enorme que eu temia nunca chegar 
a um fim - mais infeliz eu o tornava e sacudia com altivez a minha nica riqueza: os cabelos escorridos que eu planejava ficarem um dia bonitos com permanente e 
que por conta do futuro eu j exercitava sacudindo-os. Estudar eu no estudava, confiava na minha vadiao sempre bem-sucedida e que tambm ela o professor tomava 
como mais uma provocao da menina odiosa. Nisso ele no tinha razo. A verdade  que no me sobrava tempo para estudar. As alegrias me ocupavam, ficar atenta me 
tomava dias e dias; havia os livros de histria que eu lia roendo de paixo as unhas at o sabugo, nos meus primeiros xtases de tristeza, refinamento que eu j 
descobrira; havia meninos que eu escolhera e que no me haviam escolhido, eu perdia horas de sofrimento porque eles eram inatingveis, e mais outras horas de sofrimento 
aceitando-os com ternura, pois o homem era o meu rei da Criao; havia a esperanosa ameaa do pecado, eu me ocupava com medo em esperar; sem falar que estava permanentemente 
ocupada em querer e no querer ser o que eu era, no me decidia por qual de mim, toda eu  que no podia; ter nascido era cheio de erros a corrigir. No, no era 
para irritar o professor que eu no estudava; s tinha tempo de crescer. O que eu fazia para todos os lados, com uma falta de graa que mais parecia o resultado 
de um erro de clculo: as pernas no combinavam com os olhos, e a boca era emocionada enquanto as mos se esgalhavam sujas - na minha pressa eu crescia sem saber 
para onde. O fato de um retrato da poca me revelar, ao contrrio, uma menina bem plantada, selvagem e suave, com olhos pensativos embaixo da franja pesada, esse 
retrato real no me desmente, s faz  revelar uma fantasmagrica estranha que eu no compreenderia se fosse a sua me. S muito depois, tendo finalmente me organizado 
em corpo e sentindo-me fundamentalmente mais garantida, pude me aventurar e estudar um pouco; antes, porm, eu no podia me arriscar a aprender, no queria me disturbar 
- tomava intuitivo cuidado com o que eu era, j que eu no sabia o que era, e com vaidade cultivava a integridade da ignorncia. Foi pena o professor no ter chegado 
a ver aquilo em que quatro anos depois inesperadamente eu me tornaria: aos treze anos, de mos limpas, banho tomado, toda composta e bonitinha, ele me teria visto 
como um cromo de Natal  varanda de um sobrado. Mas, em vez dele, passara embaixo um ex-amiguinho meu, gritara alto o meu nome, sem perceber que eu j no era mais 
um moleque e sim uma jovem digna cujo nome no pode mais ser berrado pelas caladas de uma cidade. "Que ?", indaguei do intruso com a maior frieza. Recebi ento 
como resposta gritada a notcia de que o professor morrera naquela madrugada. E branca, de olhos muito abertos, eu olhara a rua vertiginosa a meus ps. Minha compostura 
quebrada como a de uma boneca partida.
Voltando a quatro anos atrs. Foi talvez por tudo o que contei, misturado e em conjunto, que escrevi a composio que o professor mandara, ponto de desenlace dessa 
histria e comeo de outras. Ou foi apenas por pressa de acabar de qualquer modo o dever para poder brincar no parque.
- Vou contar uma histria, disse ele, e vocs faam a composio. Mas usando as palavras de vocs. Quem for acabando no precisa esperar pela sineta, j pode ir 
para o recreio.
O que ele contou: um homem muito pobre sonhara que descobrira um tesouro e ficara muito rico; acordando, arrumara sua trouxa, sara em busca do tesouro; andara o 
mundo inteiro e continuava sem achar o tesouro; cansado, voltara para a sua pobre, pobre casinha; e como no tinha o que comer, comeara a plantar no seu pobre quintal; 
tanto plantara, tanto colhera, tanto comeara a vender que terminara ficando muito rico.
Ouvi com ar de desprezo, ostensivamente brincando com o lpis, como se quisesse deixar claro que suas histrias no me ludibriavam e que eu bem sabia quem ele era. 
Ele contara sem olhar uma s vez para mim.  que na falta de jeito de am-lo e no gosto de persegui-lo, eu tambm o acossava com o olhar: a tudo o que ele dizia 
eu respondia com um simples olhar direto, do qual ningum em s conscincia poderia me acusar. Era um olhar que eu tornava bem lmpido e anglico, muito aberto, 
como o da candidez olhando o crime. E conseguia sempre o mesmo resultado: com perturbao ele evitava meus olhos, comeando a gaguejar. O que me enchia de um poder 
que me amaldioava. E de piedade. O que por sua vez me irritava. Irritava-me que ele obrigasse uma porcaria de criana a compreender um homem.
Eram quase dez horas da manh, em breve soaria a sineta do recreio. Aquele meu colgio, alugado dentro de um dos parques da cidade, tinha o maior campo de recreio 
que j vi. Era to bonito para mim como seria para um esquilo ou um cavalo. Tinha rvores espalhadas, longas descidas e subidas e estendida relva. No acabava nunca. 
Tudo ali era longe e grande, feito para pernas compridas de menina, com lugar para montes de tijolo e madeira de origem ignorada, para moitas de azedas begnias 
que ns comamos, para sol e sombra onde as abelhas faziam mel. L cabia um ar livre imenso. E tudo fora vivido por ns: j tnhamos rolado de cada declive, intensamente 
cochichado atrs de cada monte de tijolo, comido de vrias flores e em todos os troncos havamos a canivete gravado datas, doces nomes feios e coraes transpassados 
por flechas; meninos e meninas ali faziam o seu mel.
Eu estava no fim da composio e o cheiro das sombras escondidas j me chamava. Apressei-me. Como eu s sabia "usar minhas prprias palavras", escrever era simples. 
Apressava-me tambm o desejo de ser a primeira a atravessar a sala - o professor terminara por me isolar em quarentena na ltima carteira - e entregar-lhe insolente 
a composio, demonstrando-lhe assim minha rapidez, qualidade que me parecia essencial para se viver e que, eu tinha certeza, o professor s podia admirar.
Entreguei-lhe o caderno e ele o recebeu sem ao menos me olhar. Melindrada, sem um elogio pela minha velocidade, sa pulando para o grande parque.
A histria que eu transcrevera em minhas prprias palavras era igual a que ele contara. S que naquela poca eu estava comeando a "tirar a moral das histrias", 
o que, se me santificava, mais tarde ameaaria sufocar-me em rigidez. Com alguma faceirice, pois, havia acrescentado as frases finais. Frases que horas depois eu 
lia e relia para ver o que nelas haveria de to poderoso a ponto de enfim ter provocado o homem de um modo como eu prpria no conseguira at ento. Provavelmente 
o que o professor quisera deixar implcito na sua histria triste  que o trabalho rduo era o nico modo de se chegar a ter fortuna. Mas levianamente eu conclura 
pela moral oposta: alguma coisa sobre o tesouro que se disfara, que est onde menos se espera, que  s descobrir, acho que falei em sujos quintais com tesouros. 
J no me lembro, no sei se foi exatamente isso. No consigo imaginar com que palavras de criana teria eu exposto um sentimento simples, mas que se torna pensamento 
complicado. Suponho que, arbitrariamente contrariando o sentido real da histria, eu de algum modo j me prometia por escrito que o cio, mais que o trabalho, me 
daria as grandes recompensas gratuitas, as nicas a que eu aspirava.  possvel tambm que j ento meu tema de vida fosse a irrazovel esperana, e que eu j tivesse 
iniciado a minha grande obstinao: eu daria tudo o que era meu por nada, mas queria que tudo me fosse dado por nada. Ao contrrio do trabalhador da histria, na 
composio eu sacudia dos ombros todos os deveres e dela saa livre e pobre, e com um tesouro na mo.
Fui para o recreio, onde fiquei sozinha com o prmio intil de ter sido a primeira, ciscando a terra, esperando impaciente pelos meninos que pouco a pouco comearam 
a surgir da sala.
No meio das violentas brincadeiras resolvi buscar na minha carteira no me lembro o qu, para mostrar ao caseiro do parque, meu amigo e protetor. Toda molhada de 
suor, vermelha de uma felicidade irrepresvel que se fosse em casa me valeria uns tapas - voei em direo  sala de aula, atravessei-a correndo, e to estabanada 
que no vi o professor a folhear os cadernos empilhados sobre a mesa. J tendo na mo a coisa que eu fora buscar, e iniciando outra corrida de volta - s ento meu 
olhar tropeou no homem.
Sozinho  ctedra: ele me olhava.
Era a primeira vez que estvamos frente a frente, por nossa conta. Ele me olhava. Meus passos, de vagarosos, quase cessaram.
Pela primeira vez eu estava s com ele, sem o apoio cochichado da classe, sem a admirao que minha afoiteza provocava. Tentei sorrir, sentindo que o sangue me sumia 
do rosto. Uma gota de suor correu-me pela testa. Ele me olhava. O olhar era uma pata macia e pesada sobre mim. Mas se a pata era suave, tolhia-me toda como a de 
um gato que sem pressa prende o rabo do rato. A gota de suor foi descendo pelo nariz e pela boca, dividindo ao meio o meu sorriso. Apenas isso: sem uma expresso 
no olhar, ele me olhava. Comecei a costear a parede de olhos baixos, prendendo-me toda a meu sorriso, nico trao de um rosto que j perdera os contornos. Nunca 
havia percebido como era comprida a sala de aula; s agora, ao lento passo do medo, eu via o seu tamanho real. Nem a minha falta de tempo me deixara perceber at 
ento como eram austeras e altas as paredes; e duras, eu sentia a parede dura na palma da mo. Num pesadelo, do qual sorrir fazia parte, eu mal acreditava poder 
alcanar o mbito da porta - de onde eu correria, ah como correria! a me refugiar no meio de meus iguais, as crianas. Alm de me concentrar no sorriso, meu zelo 
minucioso era o de no fazer barulho com os ps, e assim eu aderia  natureza ntima de um perigo do qual tudo o mais eu desconhecia. Foi num arrepio que me adivinhei 
de repente como num espelho: uma coisa mida se encostando  parede, avanando devagar na ponta dos ps, e com um sorriso cada vez mais intenso. Meu sorriso cristalizara 
a sala em silncio, e mesmo os rudos que vinham do parque escorriam pelo lado de fora do silncio. Cheguei finalmente  porta, e o corao imprudente ps-se a bater 
alto demais sob o risco de acordar o gigantesco mundo que dormia.
Foi quando ouvi meu nome.
De sbito pregada ao cho, com a boca seca, ali fiquei de costas para ele sem coragem de me voltar. A brisa que vinha pela porta acabou de secar o suor do corpo. 
Virei-me devagar, contendo dentro dos punhos cerrados o impulso de correr.
Ao som de meu nome a sala se desipnotizara.
E bem devagar vi o professor todo inteiro. Bem devagar vi que o professor era muito grande e muito feio, e que ele era o homem de minha vida. O novo e grande medo. 
Pequena, sonmbula, sozinha, diante daquilo a que a minha fatal liberdade finalmente me levara. Meu sorriso, tudo o que sobrara de um rosto, tambm se apagara. Eu 
era dois ps endurecidos no cho e um corao que de to vazio parecia morrer de sede. Ali fiquei, fora do alcance do homem. Meu corao morria de sede, sim. Meu 
corao morria de sede.
Calmo como antes de friamente matar ele disse:
- Chegue mais perto...
Como  que um homem se vingava?
Eu ia receber de volta em pleno rosto a bola de mundo que eu mesma lhe jogara e que nem por isso me era conhecida. Ia receber de volta uma realidade que no teria 
existido se eu no a tivesse temerariamente adivinhado e assim lhe dado vida. At que ponto aquele homem, monte de compacta tristeza, era tambm monte de fria? 
Mas meu passado era agora tarde demais. Um arrependimento estico manteve erecta a minha cabea. Pela primeira vez a ignorncia, que at ento fora o meu grande 
guia, desamparava-me. Meu pai estava no trabalho, minha me morrera h meses. Eu era o nico eu.
- ... Pegue o seu caderno..., acrescentou ele.
A surpresa me fez subitamente olh-lo. Era s isso, ento!? O alvio inesperado foi quase mais chocante que o meu susto anterior. Avancei um passo, estendi a mo 
gaguejante.
Mas o professor ficou imvel e no entregou o caderno.
Para a minha sbita tortura, sem me desfitar, foi tirando lentamente os culos. E olhou-me com olhos nus que tinham muitos clios. Eu nunca tinha visto seus olhos 
que, com as inmeras pestanas, pareciam duas baratas doces. Ele me olhava. E eu no soube como existir na frente de um homem. Disfarcei olhando o teto, o cho, as 
paredes, e mantinha a mo ainda estendida porque no sabia como recolh-la. Ele me olhava manso, curioso, com os olhos despenteados como se tivesse acordado. Iria 
ele me amassar com mo inesperada? Ou exigir que eu me ajoelhasse e pedisse perdo. Meu fio de esperana era que ele no soubesse o que eu lhe tinha feito, assim 
como eu mesma j no sabia, na verdade eu nunca soubera.
- Como  que lhe veio a idia do tesouro que se disfara?
- Que tesouro? - murmurei atoleimada. Ficamos nos fitando em silncio.
- Ah, o tesouro! Precipitei-me de repente mesmo sem entender, ansiosa por admitir qualquer falta, implorando-lhe que meu castigo consistisse apenas em sofrer para 
sempre de culpa, que a tortura eterna fosse a minha punio, mas nunca essa vida desconhecida.
- O tesouro que est escondido onde menos se espera. Que  s descobrir. Quem lhe disse isso?
O homem enlouqueceu, pensei, pois que tinha a ver o tesouro com aquilo tudo? Atnita, sem compreender, e caminhando de inesperado a inesperado, pressenti no entanto 
um terreno menos perigoso. Nas minhas corridas eu aprendera a me levantar das quedas mesmo quando mancava, e me refiz logo: "foi a composio do tesouro! esse ento 
deve ter sido o meu erro!" Fraca, e embora pisando cuidadosa na nova e escorregadia segurana, eu no entanto j me levantara o bastante da minha queda para poder 
sacudir, numa imitao da antiga arrogncia, a futura cabeleira ondulada:
- Ningum, ora..., respondi mancando. Eu mesma inventei, disse trmula, mas j recomeando a cintilar.
Se eu ficara aliviada por ter alguma coisa enfim concreta com que lidar, comeava no entanto a me dar conta de algo muito pior. A sbita falta de raiva nele. Olhei-o 
intrigada, de vis. E aos poucos desconfiadssima. Sua falta de raiva comeara a me amedrontar, tinha ameaas novas que eu no compreendia. Aquele olhar que no 
me desfitava - e sem clera... Perplexa, e a troco de nada, eu perdia o meu inimigo e sustento. Olhei-o surpreendida. Que  que ele queria de mim? Ele me constrangia. 
E seu olhar sem raiva passara a me importunar mais do que a brutalidade que eu temera. Um medo pequeno, todo frio e suado, foi me tomando. Devagar, para ele no 
perceber, recuei as costas at encontrar atrs delas a parede, e depois a cabea recuou at no ter mais para onde ir. Daquela parede onde eu me engastara toda, 
furtivamente olhei-o.
E meu estmago se encheu de uma gua de nusea. No sei contar.
Eu era uma menina muito curiosa e, para a minha palidez, eu vi. Eriada, prestes a vomitar, embora at hoje no saiba ao certo o que vi. Mas sei que vi. Vi to fundo 
quanto numa boca, de chofre eu via o abismo do mundo. Aquilo que eu via era annimo como uma barriga aberta para uma operao de intestinos. Vi uma coisa se fazendo 
na sua cara - o mal-estar j petrificado subia com esforo at a sua pele, vi a careta vagarosamente hesitando e quebrando uma crosta - mas essa coisa que em muda 
catstrofe se desenraizava, essa coisa ainda se parecia to pouco com um sorriso como se um fgado ou um p tentassem sorrir, no sei. O que vi, vi to de perto 
que no sei o que vi. Como se meu olho curioso se tivesse colado ao buraco da fechadura e em choque deparasse do outro lado com outro olho colado me olhando. Eu 
vi dentro de um olho. O que era to incompreensvel como um olho. Um olho aberto com sua gelatina mvel. Com suas lgrimas orgnicas. Por si mesmo o olho chora, 
por si mesmo o olho ri. At que o esforo do homem foi se completando todo atento, e em vitria infantil ele mostrou, prola arrancada da barriga aberta - que estava 
sorrindo. Eu vi um homem com entranhas sorrindo. Via sua apreenso extrema em no errar, sua aplicao de aluno lento, a falta de jeito como se de sbito ele se 
tivesse tornado canhoto. Sem entender, eu sabia que pediam de mim que eu recebesse a entrega dele e de sua barriga aberta, e que eu recebesse o seu peso de homem. 
Minhas costas foraram desesperadamente a parede, recuei - era cedo demais para eu ver tanto. Era cedo demais para eu ver como nasce a vida. Vida nascendo era to 
mais sangrento do que morrer. Morrer  ininterrupto. Mas ver matria inerte lentamente tentar se erguer como um grande morto-vivo... Ver a esperana me aterrorizava, 
ver a vida me embrulhava o estmago. Estavam pedindo demais de minha coragem s porque eu era corajosa, pediam minha fora s porque eu era forte. "Mas e eu?", gritei 
dez anos depois por motivos de amor perdido, "quem vir jamais  minha fraqueza!" Eu o olhava surpreendida, e para sempre no soube o que vi, o que eu vira poderia 
cegar os curiosos.
Ento ele disse, usando pela primeira vez o sorriso que aprendera:
- Sua composio do tesouro est to bonita. O tesouro que  s descobrir. Voc... - ele nada acrescentou por um momento. Perscrutou-me suave, indiscreto, to meu 
ntimo como se ele fosse o meu corao. - Voc  uma menina muito engraada, disse afinal.
Foi a primeira vergonha real de minha vida. Abaixei os olhos, sem poder sustentar o olhar indefeso daquele homem a quem eu enganara.
Sim, minha impresso era a de que, apesar de sua raiva, ele de algum modo havia confiado em mim, e que ento eu o enganara com a lorota do tesouro. Naquele tempo 
eu pensava que tudo o que se inventa  mentira, e somente a conscincia atormentada do pecado me redimia do vcio. Abaixei os olhos com vergonha. Preferia sua clera 
antiga, que me ajudara na minha luta contra mim mesma, pois coroava de insucesso os meus mtodos e talvez terminasse um dia me corrigindo: eu no queria era esse 
agradecimento que no s era a minha pior punio, por eu no merec-lo, como vinha encorajar minha vida errada que eu tanto temia, viver errado me atraa. Eu bem 
quis lhe avisar que no se acha tesouro  toa. Mas, olhando-o, desanimei: faltava-me a coragem de desiludi-lo. Eu j me habituara a proteger a alegria dos outros, 
a de meu pai, por exemplo, que era mais desprevenido que eu. Mas como me foi difcil engolir a seco essa alegria que to irresponsavelmente eu causara! Ele parecia 
um mendigo que agradecesse o prato de comida sem perceber que lhe haviam dado carne estragada. O sangue me subira ao rosto, agora to quente que pensei estar com 
os olhos injetados, enquanto ele, provavelmente em novo engano, devia pensar que eu corara de prazer ao elogio. Naquela mesma noite aquilo tudo se transformaria 
em incoercvel crise de vmitos que manteria acesas todas as luzes de minha casa.
- Voc - repetiu ento ele lentamente como se aos poucos estivesse admitindo com encantamento o que lhe viera por acaso  boca -, voc  uma menina muito engraada, 
sabe? Voc  uma doidinha..., disse usando outra vez o sorriso como um menino que dorme com os sapatos novos. Ele nem ao menos sabia que ficava feio quando sorria. 
Confiante, deixava-me ver a sua feira, que era a sua parte mais inocente.
Tive que engolir como pude a ofensa que ele me fazia ao acreditar em mim, tive que engolir a piedade por ele, a vergonha por mim, "tolo!", pudesse eu lhe gritar, 
"essa histria de tesouro disfarado foi inventada,  coisa s para menina!" Eu tinha muita conscincia de ser uma criana, o que explicava todos os meus graves 
defeitos, e pusera tanta f em um dia crescer - e aquele homem grande se deixara enganar por uma menina safadinha. Ele matava em mim pela primeira vez a minha f 
nos adultos: tambm ele, um homem, acreditava como eu nas grandes mentiras...
...E de repente, com o corao batendo de desiluso, no suportei um instante mais - sem ter pegado o caderno corri para o parque, a mo na boca como se me tivessem 
quebrado os dentes. Com a mo na boca, horrorizada, eu corria, corria para nunca parar, a prece profunda no  aquela que pede, a prece mais profunda  a que no 
pede mais - eu corria, eu corria muito espantada.
Na minha impureza eu havia depositado a esperana de redeno nos adultos. A necessidade de acreditar na minha bondade futura fazia com que eu venerasse os grandes, 
que eu fizera  minha imagem, mas a uma imagem de mim enfim purificada pela penitncia do crescimento, enfim liberta da alma suja de menina. E tudo isso o professor 
agora destrua, e destrua meu amor por ele e por mim. Minha salvao seria impossvel: aquele homem tambm era eu. Meu amargo dolo que cara ingenuamente nas artimanhas 
de uma criana confusa e sem candura, e que se deixara docilmente guiar pela minha diablica inocncia... Com a mo apertando a boca, eu corria pela poeira do parque.
Quando enfim me dei conta de estar bem longe da rbita do professor, sofreei exausta a corrida, e quase a cair encostei-me em todo o meu peso no tronco de uma rvore, 
respirando alto, respirando. Ali fiquei ofegante e de olhos fechados, sentindo na boca o amargo empoeirado do tronco, os dedos mecanicamente passando e repassando 
pelo duro entalhe de um corao com flecha. E de repente, apertando os olhos fechados, gemi entendendo um pouco mais: estaria ele querendo dizer que... que eu era 
um tesouro disfarado? O tesouro onde menos se espera... Oh no, no, coitadinho dele, coitado daquele rei da Criao, de tal modo precisara... de qu? de que precisara 
ele?... que at eu me transformara em tesouro.
Eu ainda tinha muito mais corrida dentro de mim, forcei a garganta seca a recuperar o flego, e empurrando com raiva o tronco da rvore recomecei a correr em direo 
ao fim do mundo.
Mas ainda no divisara o fim sombreado do parque, e meus passos foram se tornando mais vagarosos, excessivamente cansados. Eu no podia mais. Talvez por cansao, 
mas eu sucumbia. Eram passos cada vez mais lentos e a folhagem das rvores se balanava lenta. Eram passos um pouco deslumbrados. Em hesitao fui parando, as rvores 
rodavam altas.  que uma doura toda estranha fatigava meu corao. Intimidada, eu hesitava. Estava sozinha na relva, mal em p, sem nenhum apoio, a mo no peito 
cansado como a de uma virgem anunciada. E de cansao abaixando quela suavidade primeira uma cabea finalmente humilde que de muito longe talvez lembrasse a de uma 
mulher. A copa das rvores se balanava para a frente, para trs. "Voc  uma menina muito engraada, voc  uma doidinha", dissera ele. Era como um amor.
No, eu no era engraada. Sem nem ao menos saber, eu era muito sria. No, eu no era doidinha, a realidade era o meu destino, e era o que em mim doa nos outros. 
E, por Deus, eu no era um tesouro. Mas se eu antes j havia descoberto em mim todo o vido veneno com que se nasce e com que se ri a vida - s naquele instante 
de mel e flores descobria de que modo eu curava: quem me amasse, assim eu teria curado quem sofresse de mim. Eu era a escura ignorncia com suas fomes e risos, com 
as pequenas mortes alimentando a minha vida inevitvel - que podia eu fazer? eu j sabia que eu era inevitvel. Mas se eu no prestava, eu fora tudo o que aquele 
homem tivera naquele momento. Pelo menos uma vez ele teria que amar, e sem ser a ningum - atravs de algum. E s eu estivera ali. Se bem que esta fosse a sua nica 
vantagem: tendo apenas a mim, e obrigado a iniciar-se amando o ruim, ele comeara pelo que poucos chegavam a alcanar. Seria fcil demais querer o limpo; inalcanvel 
pelo amor era o feio, amar o impuro era a nossa mais profunda nostalgia. Atravs de mim, a difcil de se amar, ele recebera, com grande caridade por si mesmo, aquilo 
de que somos feitos. Entendia eu tudo isso? No. E no sei o que na hora entendi. Mas assim como por um instante no professor eu vira com aterrorizado fascnio o 
mundo - e mesmo agora ainda no sei o que vi, s que para sempre e em um segundo eu vi - assim eu nos entendi, e nunca saberei o que entendi. Nunca saberei o que 
eu entendo. O que quer que eu tenha entendido no parque foi, com um choque de doura, entendido pela minha ignorncia. Ignorncia que ali em p - numa solido sem 
dor, no menor que a das rvores - eu recuperava inteira, a ignorncia e a sua verdade incompreensvel. Ali estava eu, a menina esperta demais, e eis que tudo o 
que em mim no prestava servia a Deus e aos homens. Tudo o que em mim no prestava era o meu tesouro.
Como uma virgem anunciada, sim. Por ele me ter permitido que eu o fizesse enfim sorrir, por isso ele me anunciara. Ele acabara de me transformar em mais do que o 
rei da Criao: fizera de mim a mulher do rei da Criao. Pois logo a mim, to cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu corao a flecha farpada. De chofre 
explicava-se para que eu nascera com mo dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar 
os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu no te doa demais, meu 
amor, j que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitvel pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mos que ardem e prendem? Para ficarmos de mos dadas, 
pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos, e olharam intimidados as prprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir.
...E foi assim que no grande parque do colgio lentamente comecei a aprender a ser amada, suportando o sacrifcio de no merecer, apenas para suavizar a dor de quem 
no ama. No, esse foi somente um dos motivos.  que os outros fazem outras histrias. Em algumas foi de meu corao que outras garras cheias de duro amor arrancaram 
a flecha farpada, e sem nojo de meu grito.


A REPARTIO DOS PES

Era sbado e estvamos convidados para o almoo de obrigao. Mas cada um de ns gostava demais de sbado para gast-lo com quem no queramos. Cada um fora alguma 
vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E ns ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fssemos obrigados a pousar entre estranhos. 
Ningum ali me queria, eu no queria a ningum. Quanto a meu sbado - que fora da janela se balanava em accias e sombras - eu preferia, a gast-lo mal, fech-lo 
na mo dura, onde eu o amarfanhava como a um leno.  espera do almoo, bebamos sem prazer,  sade do ressentimento: amanh j seria domingo. No  com voc que 
eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprvamos devagar a fumaa do cigarro seco. A avareza de no repartir o sbado ia pouco a pouco roendo e avanando como 
ferrugem, at que qualquer alegria seria um insulto  alegria maior.
S a dona da casa no parecia economizar o sbado para us-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo corao j conhecera outros sbados. Como pudera esquecer 
que se quer mais e mais? No se impacientava sequer com o grupo heterogneo, sonhador e resignado que na sua casa s esperava como pela hora do primeiro trem partir, 
qualquer trem - menos ficar naquela estao vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de corao batendo para outros, outros cavalos.
Passamos afinal  sala para um almoo que no tinha a bno da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. No podia ser para ns...
Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que no viera? Mas ramos ns mesmos. Ento aquela mulher dava o melhor no importava 
a quem? E lavava contente os ps do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhvamos.
A mesa fora coberta por uma solene abundncia. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E mas vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates 
de pele quase estalando, chuchus de um verde lquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriados como porcos-espinhos, 
pepinos que se fechavam duros sobre a prpria carne aquosa, pimentes ocos e avermelhados que ardiam nos olhos - tudo emaranhado em barbas e barbas midas de milho, 
ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E no lhes importava esmagadas 
por quem. Os tomates eram redondos para ningum: para o ar, para o redondo ar. Sbado era de quem viesse. E a laranja adoaria a lngua de quem primeiro chegasse. 
Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava ps de estranhos pusera - mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar - um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes 
ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroos. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limes verdes. Nas bilhas estava 
o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de to pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de ns. 
Tudo limpo do retorcido desejo humano. Tudo como , no como quisramos. S existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens 
e mulheres, e no ns, os vidos. Assim como um sbado. Assim como apenas existe. Existe.
Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ningum, era bom. Sem nenhum sonho. E ns pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, 
 altura da vida possvel. Ento, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.
No havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto ns queramos com-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia quilo 
que me fazia sentir. Era um viver que eu no pagara de antemo com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca j est perto da comida. Porque agora estvamos 
com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tomava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro 
bebia. L fora Deus nas accias. Que existiam. Comamos. Como quem d gua ao cavalo. A carne trinchada foi distribuda. A cordialidade era rude e rural. Ningum 
falou mal de ningum porque ningum falou bem de ningum. Era reunio de colheita, e fez-se trgua. Comamos. Como uma horda de seres vivos, cobramos gradualmente 
a terra. Ocupados como quem lavra a existncia, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem no engana o que come: comi aquela 
comida e no o seu nome. Nunca Deus foi to tomado pelo que Ele . A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era 
a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixo da piedade. E sem me oferecer  esperana. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque 
nem sempre posso ser a guarda de meu irmo, e no posso mais ser a minha guarda, ah no me quero mais. E no quero formar a vida porque a existncia j existe. Existe 
como um cho onde ns todos avanamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Ns somos fortes e ns comemos. Po  amor entre estranhos.


A MENSAGEM

A princpio, quando a moa disse que sentia angstia, o rapaz se surpreendeu tanto que corou e mudou rapidamente de assunto para disfarar o aceleramento do corao.
Mas h muito tempo - desde que era jovem - ele passara afoitamente do simplismo infantil de falar dos acontecimentos em termos de "coincidncia". Ou melhor - evoluindo 
muito e no acreditando nunca mais - ele considerava a expresso "coincidncia" um novo truque de palavras e um renovado ludibrio.
Assim, engolida emocionadamente a alegria involuntria que a verdadeiramente espantosa coincidncia dela tambm sentir angstia lhe provocara - ele se viu falando 
com ela na sua prpria angstia, e logo com uma moa! ele que de corao de mulher s recebera o beijo de me.
Viu-se conversando com ela, escondendo com secura o maravilhamento de enfim poder falar sobre coisas que realmente importavam; e logo com uma moa! Conversavam tambm 
sobre livros, mal podiam esconder a urgncia que tinham de pr em dia tudo em que nunca antes haviam falado. Mesmo assim, jamais certas palavras eram pronunciadas 
entre ambos. Dessa vez no porque a expresso fosse mais uma armadilha de que os outros dispem para enganar os moos. Mas por vergonha. Porque nem tudo ele teria 
coragem de dizer, mesmo que ela, por sentir angstia, fosse pessoa de confiana. Nem em misso ele falaria jamais, embora essa expresso to perfeita, que ele por 
assim dizer criara, lhe ardesse na boca, ansiosa por ser dita.
Naturalmente, o fato dela tambm sofrer simplificara o modo de se tratar uma moa, conferindo-lhe um carter masculino. Ele passou a trat-la como camarada.
Ela mesma tambm passou a ostentar com modstia aureolada a prpria angstia, como um novo sexo. Hbridos - ainda sem terem escolhido um modo pessoal de andar, e 
sem terem ainda uma caligrafia definitiva, cada dia a copiarem os pontos de aula com letra diferente - hbridos eles se procuravam, mal disfarando a gravidade. 
Uma vez ou outra, ele ainda sentia aquela incrdula aceitao da coincidncia: ele, to original, ter encontrado algum que falava a sua lngua! Aos poucos compactuaram. 
Bastava ela dizer, como numa senha, "passei ontem uma tarde ruim", e ele sabia com austeridade que ela sofria como ele sofria. Havia tristeza, orgulho e audcia 
entre ambos.
At que tambm a palavra angstia foi secando, mostrando como a linguagem falada mentia. (Eles queriam um dia escrever.) A palavra angstia passou a tomar aquele 
tom que os outros usavam, e passou a ser um motivo de leve hostilidade entre ambos. Quando ele sofria, achava uma gafe ela falar em angstia. "Eu j superei esta 
palavra", ele sempre superava tudo antes dela, s depois  que a moa o alcanava.
E aos poucos ela se cansou de ser aos olhos dele a nica mulher angustiada. Apesar disso lhe conferir um carter intelectual, ela tambm era alerta a essa espcie 
de equvocos. Pois ambos queriam, acima de tudo, ser autnticos. Ela, por exemplo, no queria erros nem mesmo a seu favor, queria a verdade, por pior que fosse. 
Alis, s vezes tanto melhor se fosse "por pior que fosse". Sobretudo a moa j comeara a no sentir prazer em ser condecorada com o ttulo de homem ao menor sinal 
que apresentava de... de ser uma pessoa. Ao mesmo tempo que isso a lisonjeava, ofendia um pouco: era como se ele se surpreendesse de ela ser capaz, exatamente por 
no julg-la capaz. Embora, se ambos no tomassem cuidado, o fato dela ser mulher poderia de sbito vir  tona. Eles tomavam cuidado.
Mas, naturalmente, havia a confuso, a falta de possibilidade de explicao, e isso significava tempo que ia passando. Meses mesmo.
E apesar da hostilidade entre ambos se tornar gradativa-mente mais intensa, como mos que esto perto e no se do, eles no podiam se impedir de se procurar. E 
isso porque - se na boca dos outros cham-los de "jovens" lhes era uma injria - entre ambos "ser jovem" era o mtuo segredo, e a mesma desgraa irremedivel. Eles 
no podiam deixar de se procurar porque, embora hostis - com o repdio que seres de sexo diferente tm quando no se desejam -, embora hostis, eles acreditavam na 
sinceridade que cada um tinha, versus a grande mentira alheia. O corao ofendido de ambos no perdoava a mentira alheia. Eles eram sinceros. E, por no serem mesquinhos, 
passavam por cima do fato de terem muita facilidade para mentir - como se o que realmente importasse fosse apenas a sinceridade da imaginao. Assim continuaram 
a se procurar, vagamente orgulhosos de serem diferentes dos outros, to diferentes a ponto de nem se amarem. Aqueles outros que nada faziam seno viver. Vagamente 
conscientes de que havia algo de falso em suas relaes. Como se fossem homossexuais de sexo oposto, e impossibilitados de unir, em uma s, a desgraa de cada um. 
Eles apenas concordavam no nico ponto que os unia: o erro que havia no mundo e a tcita certeza de que se eles no o salvassem seriam traidores. Quanto a amor, 
eles no se amavam, era claro. Ela at j lhe falara de uma paixo que tivera recentemente por um professor. Ele chegara a lhe dizer - j que ela era como um homem 
para ele -, chegara mesmo a lhe dizer, com uma frieza que inesperadamente se quebrara em horrvel bater de corao, que um rapaz  obrigado a resolver "certos problemas", 
se quiser ter a cabea livre para pensar. Ele tinha dezesseis anos, e ela, dezessete. Que ele, com severidade, resolvia de vez em quando certos problemas, nem seu 
pai sabia.
O fato  que, tendo uma vez se encontrado na parte secreta deles mesmos, resultar na tentao e na esperana de um dia chegar ao mximo. Que mximo?
Que , afinal, que eles queriam? Eles no sabiam, e usavam-se como quem se agarra em rochas menores at poder sozinho galgar a maior, a difcil e a impossvel; usavam-se 
para se exercitarem na iniciao; usavam-se impacientes, ensaiando um com o outro o modo de bater asas para que enfim - cada um sozinho e liberto - pudesse dar o 
grande vo solitrio que tambm significaria o adeus um do outro. Era isso? Eles se precisavam temporariamente, irritados pelo outro ser desastrado, um culpando 
o outro de no ter experincia. Falhavam em cada encontro, como se numa cama se desiludissem. O que , afinal, que queriam? Queriam aprender. Aprender o qu? eram 
uns desastrados. Oh, eles no poderiam dizer que eram infelizes sem ter vergonha, porque sabiam que havia os que passam fome; eles comiam com fome e vergonha. Infelizes? 
Como? se na verdade tocavam, sem nenhum motivo, num tal ponto extremo de felicidade como se o mundo fosse sacudido e dessa rvore imensa cassem mil frutos. Infelizes? 
se eram corpos com sangue como uma flor ao sol. Como? se estavam para sempre sobre as prprias pernas fracas, conturbados, livres, milagrosamente de p, as pernas 
dela depiladas, as dele indecisas mas a terminarem em sapatos nmero 44. Como poderiam jamais ser infelizes seres assim?
Eles eram muito infelizes. Procuravam-se cansados, expectantes, forando uma continuao da compreenso inicial e casual que nunca se repetira - e sem nem ao menos 
se amarem. O ideal os sufocava, o tempo passava intil, a urgncia os chamava - eles no sabiam para o que caminhavam, e o caminho os chamava. Um pedia muito do 
outro, mas  que ambos tinham a mesma carncia, e jamais procurariam um par mais velho que lhes ensinasse, por que no eram doidos de se entregarem sem mais nem 
menos ao mundo feito.
Um modo possvel de ainda se salvarem seria o que eles nunca chamariam de poesia. Na verdade, o que seria poesia, essa palavra constrangedora? Seria encontrarem-se 
quando, por coincidncia, casse uma chuva repentina sobre a cidade? Ou talvez, enquanto tomavam um refresco, olharem ao mesmo tempo a cara de uma mulher passando 
na rua? ou mesmo encontrarem-se por coincidncia na velha noite de lua e vento? Mas ambos haviam nascido com a palavra poesia j publicada com o maior despudor nos 
suplementos de domingo dos jornais. Poesia era a palavra dos mais velhos. E a desconfiana de ambos era enorme, como de bichos. Em quem o instinto avisa: que um 
dia sero caados. Eles j tinham sido por demais enganados para poderem agora acreditar. E, para ca-los, teria sido preciso uma enorme cautela, muito faro e muita 
lbia, e um carinho ainda mais cauteloso - um carinho que no os ofendesse - para, pegando-os desprevenidos, poder captur-los na rede. E, com mais cautela ainda 
para no despert-los, lev-los astuciosamente para o mundo dos viciados, para o mundo j criado; pois esse era o papel dos adultos e dos espies. De to longamente 
ludibriados, vaidosos da prpria amargura, tinham repugnncia por palavras, sobretudo quando uma palavra - como poesia - era to esperta que quase exprimia, e a 
ento  que mostrava mesmo como exprimia pouco. Ambos tinham, na verdade, repugnncia pela maioria das palavras, o que estava longe de facilitar-lhes uma comunicao, 
j que eles ainda no haviam inventado palavras melhores: eles se desentendiam constantemente, obstinados rivais. Poesia? Oh, como eles a detestavam. Como se fosse 
sexo. Eles tambm achavam que os outros queriam ca-los no para o sexo, mas para a normalidade. Eles eram medrosos, cientficos, exaustos de experincia. Na palavra 
experincia, sim, eles falavam sem pudor e sem explic-la: a expresso ia mesmo variando sempre de significado. Experincia s vezes tambm se confundia com mensagem. 
Eles usavam ambas as palavras sem aprofundar-lhes muito o sentido.
Alis, no aprofundavam nada, como se no houvesse tempo, como se existissem coisas demais sobre as quais trocar idias. No percebendo que no trocavam nenhuma 
idia.
Bem, mas no era apenas isso, e nem com essa simplicidade. No era apenas isso: nesse nterim o tempo ia passando, confuso, vasto, entrecortado, e o corao do tempo 
era o sobressalto e havia aquele dio contra o mundo que ningum lhes diria que era amor desesperado e era piedade, e havia neles a ctica sabedoria de velhos chineses, 
sabedoria que de repente podia se quebrar denunciando duas caras que se consternavam porque eles no sabiam como se sentar com naturalidade numa sorveteria: tudo 
ento se quebrava, denunciando de repente dois impostores. O tempo ia passando, nenhuma idia se trocava, e nunca, nunca eles se compreendiam com perfeio como 
na primeira vez em que ela dissera que sentia angstia e, por milagre, tambm ele dissera que sentia, e formara-se o pacto horrvel. E nunca, nunca acontecia alguma 
coisa que enfim arrematasse a cegueira com que estendiam as mos e que os tornasse prontos para o destino que impaciente os esperava, e os fizesse enfim dizer para 
sempre adeus.
Talvez estivessem to prontos para se soltarem um do outro como uma gota de gua quase a cair, e apenas esperassem algo que simbolizasse a plenitude da angstia 
para poderem se separar. Talvez, maduros como uma gota de gua, tivessem provocado o acontecimento de que falarei.
O vago acontecimento em torno da casa velha s existiu porque eles estavam prontos para isso. Tratava-se apenas de uma casa velha e vazia. Mas eles tinham uma vida 
pobre e ansiosa como se nunca fossem envelhecer, como se nada jamais lhes fosse suceder - e ento a casa tornou-se um acontecimento. Haviam voltado da ltima aula 
do perodo escolar. Tinham tomado o nibus, saltado, e iam andando. Como sempre, andavam entre depressa e soltos, e de repente devagar, sem jamais acertar o passo, 
inquietos quanto  presena do outro. Era um dia ruim para ambos, vspera de frias. A ltima aula os deixava sem futuro e sem amarras, cada um desprezando o que 
na casa mtua de ambos as famlias lhes asseguravam como futuro e amor e incompreenso. Sem um dia seguinte e sem amarras, eles estavam pior que nunca, mudos, de 
olhos abertos.
Nessa tarde a moa estava de dentes cerrados, olhando tudo com rancor ou ardor, como se procurasse no vento, na poeira e na prpria extrema pobreza de alma mais 
uma provocao para a clera.
E o rapaz, naquela rua da qual eles nem sabiam o nome, o rapaz pouco tinha do homem da Criao. O dia estava plido, e o menino mais plido ainda, involuntariamente 
moo, ao vento, obrigado a viver. Estava porm suave e indeciso, como se qualquer dor s o tornasse ainda mais moo, ao contrrio dela, que estava agressiva. Informes 
como eram, tudo lhes era possvel, inclusive s vezes permutavam as qualidades: ela se tornava como um homem, e ele com uma doura quase ignbil de mulher. Vrias 
vezes ele quase se despedira, mas, vago e vazio como estava, no saberia o que fazer quando voltasse para casa, como se o fim das aulas tivesse cortado o ltimo 
elo. Continuara, pois, mudo atrs dela, seguindo-a com a docilidade do desamparo. Apenas um stimo sentido de mnima escuta ao mundo o mantinha, ligando-o em obscura 
promessa ao dia seguinte. No, os dois no eram propriamente neurticos e - apesar do que eles pensavam um do outro vingativamente nos momentos de mal contida hostilidade 
- parece que a psicanlise no os resolveria totalmente. Ou talvez resolvesse.
Era uma das ruas que desembocam diante do Cemitrio So Joo Batista, com poeira seca, pedras soltas e pretos parados  porta dos botequins.
Os dois andavam na calada esburacada que mal os continha de to estreita. Ela fez um movimento - ele pensou que ela ia atravessar a rua e deu um passo para segui-la 
- ela se voltou sem saber de que lado ele estava - ele recuou procurando-a. Naquele mnimo instante em que se buscaram inquietos, viraram-se ao mesmo tempo de costas 
para os nibus - e ficaram de p diante da casa, tendo ainda a procura no rosto.
Talvez tudo tivesse vindo de eles estarem com a procura no rosto. Ou talvez do fato da casa estar diretamente encostada  calada e ficar to "perto". Eles mal tinham 
espao para olh-la, imprensados como estavam na calada estreita, entre o movimento ameaador dos nibus e a imobilidade absolutamente serena da casa. No, no 
era por bombardeio: mas era uma casa quebrada, como diria uma criana. Era grande, larga e alta como as casas ensobradadas do Rio antigo. Uma grande casa enraizada.
Com uma indagao muito maior do que a pergunta que tinham no rosto, eles se haviam voltado incautelosamente ao mesmo tempo, e a casa estava to perto como se, saindo 
do nada, lhes fosse jogada aos olhos uma sbita parede. Atrs deles os nibus,  frente a casa - no havia como no estar ali. Se recuassem seriam atingidos pelos 
nibus, se avanassem esbarrariam na monstruosa casa. Tinham sido capturados.
A casa era alta, e perto, eles no podiam olh-la sem ter que levantar infantilmente a cabea, o que os tornou de sbito muito pequenos e transformou a casa em manso. 
Era como se jamais alguma coisa tivesse estado to perto deles. A casa devia ter tido uma cor. E qualquer que fosse a cor primitiva das janelas, estas eram agora 
apenas velhas e slidas. Apequenados, eles abriram os olhos espantados: a casa era angustiada.
A casa era angstia e calma. Como palavra nenhuma o fora. Era uma construo que pesava no peito dos dois meninos. Um sobrado como quem leva a mo  garganta. Quem? 
Quem a construra, levantando aquela feira pedra por pedra, aquela catedral do medo solidificado?! Ou fora o tempo que se colara em paredes simples e lhes dera 
aquele ar de estrangulamento, aquele silncio de enforcado tranqilo? A casa era forte como um boxeur sem pescoo. E ter a cabea diretamente ligada aos ombros era 
a angstia. Eles olharam a casa como crianas diante de uma escadaria.
Enfim ambos haviam inesperadamente alcanado a meta e estavam diante da esfinge. Boquiabertos, na extrema unio do medo e do respeito e da palidez, diante daquela 
verdade. A nua angstia dera um pulo e colocara-se diante deles - nem ao menos familiar como a palavra que eles tinham se habituado a usar. Apenas uma casa grossa, 
tosca, sem pescoo, s aquela potncia antiga.
Eu sou enfim a prpria coisa que vocs procuravam, disse a casa grande.
E o mais engraado  que no tenho segredo nenhum, disse tambm a grande casa.
A moa olhava adormecida. Quanto ao rapaz, seu stimo sentido enganchara-se na parte mais interior da construo e ele sentia na ponta do fio um mnimo estremecimento 
de resposta. Mal se movia, com medo de espantar a prpria ateno. A moa ancorara-se no espanto, com medo de sair deste para o terror de uma descoberta. Mal falassem, 
e a casa desabaria. O silncio de ambos deixava o sobrado intacto. Mas, se antes eles tinham sido forados a olh-lo, agora, mesmo que lhes avisassem que o caminho 
estava livre para fugirem, ali ficariam, presos pelo fascnio e pelo horror. Fixando aquela coisa erguida to antes deles nascerem, aquela coisa secular e j esvaziada 
de sentido, aquela coisa vinda do passado. Mas e o futuro?! Oh Deus, dai-nos o nosso futuro! A casa sem olhos, com a potncia de um cego. E se tinha olhos, eram 
redondos olhos vazios de esttua. Oh Deus, no nos deixeis ser filhos desse passado vazio, entregai-nos ao futuro. Eles queriam ser filhos. Mas no dessa endurecida 
carcaa fatal, eles no compreendiam o passado: oh livrai-nos do passado, deixai-nos cumprir o nosso duro dever. Pois no era a liberdade o que as duas crianas 
queriam, elas bem queriam ser convencidas e subjugadas e conduzidas - mas teria que ser por alguma coisa mais poderosa que o grande poder que lhes batia no peito.
A moa desviou subitamente o rosto, to infeliz que sou, to infeliz que sempre fui, as aulas acabaram, tudo acabou! - porque na sua avidez ela era ingrata com uma 
infncia que fora provavelmente alegre. A moa subitamente desviou o rosto com uma espcie de grunhido.
Quanto ao rapaz, ele rapidamente perdia p na vaguido como se fosse ficando sem um pensamento. Isso tambm era resultado da luz da tarde: era uma luz lvida e sem 
hora. O rosto do rapaz estava esverdeado e calmo, e ele agora no tinha nenhuma ajuda das palavras dos outros: exatamente como temerariamente aspirara um dia conseguir. 
S que no contara com a misria que havia em no poder exprimir.
Verdes e nauseados, eles no saberiam exprimir. A casa simbolizava alguma coisa que eles jamais poderiam alcanar, mesmo com toda uma vida de procura de expresso. 
Procurar a expresso, por uma vida inteira que fosse, seria em si um divertimento, amargo e perplexo, mas divertimento, e seria uma divergncia que pouco a pouco 
os afastaria da perigosa verdade - e os salvaria. Logo eles que, na desesperada esperteza de sobreviver, j tinham inventado para eles mesmos um futuro: ambos iam 
ser escritores, e com uma determinao to obstinada como se exprimir a alma a suprimisse enfim. E se no suprimisse, seria um modo de s saber que se mente na solido 
do prprio corao.
Ao passo que com a casa do passado eles no poderiam brincar. Agora, to menores que ela, parecia-lhes que tinham apenas brincado de ser moo e doloroso e de dar 
a mensagem. Agora, espantados, tinham finalmente o que haviam perigosa e imprudentemente pedido: eram dois jovens realmente perdidos. Como diriam as pessoas mais 
velhas, "eles estavam tendo o que bem mereciam". E eram to culpados como crianas culpadas, to culpados como so inocentes os criminosos. Ah, se ainda pudessem 
apaziguar o mundo por eles exacerbado, assegurando-lhe: "estvamos apenas brincando! somos dois impostores!" Mas era tarde. "Rende-te sem condio e faze de ti uma 
parte de mim que sou o passado" - dizia-lhes a vida futura. E, por Deus, em nome de que poderia algum exigir que tivessem esperana de que o futuro seria deles? 
quem?! mas quem se interessava em esclarecer-lhes o mistrio, e sem mentir? havia por acaso algum trabalhando nesse sentido? Dessa vez, emudecidos como estavam, 
nem lhes ocorreria acusar a sociedade.
A moa havia subitamente voltado o rosto com um grunhido, uma espcie de soluo ou tosse.
"Meio que chorar nessa hora  bem de mulher", pensou ele do fundo de sua perdio, sem saber o que queria dizer com "essa hora". Mas esta foi a primeira solidez 
que ele encontrou para si mesmo. Agarrando-se a essa primeira tbua, pde voltar cambaleante  tona, e como sempre antes da moa. Voltou antes dela, e viu uma casa 
de p com um cartaz de "Aluga-se". Ouviu o nibus s suas costas, viu uma casa vazia, e ao seu lado a moa com um rosto doentio, procurando escond-lo do homem j 
acordado: ela procurava por algum motivo ocultar a cara.
Ainda vacilante, ele esperou com polidez que ela se recompusesse. Esperou vacilante, sim, mas homem. Magro e irremediavelmente moo, sim, mas homem. Um corpo de 
homem era a solidez que o recuperava sempre. Volta e meia, quando precisava muito, ele se tornava um homem. Ento, com mo incerta, acendeu sem naturalidade um cigarro, 
como se ele fosse os outros, socorrendo-se dos gestos que a maonaria dos homens lhe dava como apoio e caminho. E ela?
Mas a moa saiu de tudo isso pintada com batom, com o ruge meio manchado, e enfeitada por um colar azul. Plumas que um momento antes haviam feito parte de uma situao 
e de um futuro, mas agora era como se ela no tivesse lavado o rosto antes de dormir e acordasse com as marcas impudicas de uma orgia anterior. Pois ela, volta e 
meia, era uma mulher.
Com um cinismo reconfortante, o rapaz olhou-a curioso. E viu que ela no passava de uma moa.
- Fico por aqui mesmo, disse-lhe ento despedindo-se com altivez, ele que nem sequer tinha mais hora certa de voltar para casa e sentia no bolso a chave da porta.
Despediram-se e eles, que nunca se apertavam as mos porque seria convencional, apertaram-se as mos, pois ela, na falta de jeito de em to m hora ter seios e um 
colar, ela estendera desastradamente a sua. O contato das duas mos midas se apalpando sem amor constrangeu o rapaz como uma operao vergonhosa, ele corou. E ela, 
com batom e ruge, procurou disfarar a prpria nudez enfeitada. Ela no era nada, e afastou-se como se mil olhos a seguissem, esquiva na sua humildade de ter uma 
condio.
Vendo-a afastar-se, ele a examinou incrdulo, com um interesse divertido: "ser possvel que mulher possa realmente saber o que  angstia?" E a dvida fez com que 
ele se sentisse muito forte. "No, mulher servia mesmo era para outra coisa, isso no se podia negar." E era de um amigo que ele precisava. Sim, de um amigo leal. 
Sentiu-se ento limpo e franco, sem nada a esconder, leal como um homem. De qualquer tremor de terra, ele saa com um movimento livre para a frente, com a mesma 
orgulhosa inconseqncia que faz o cavalo relinchar. Enquanto ela saiu costeando a parede como uma intrusa, j quase me dos filhos que um dia teria, o corpo pressentindo 
a submisso, corpo sagrado e impuro a carregar. O rapaz olhou-a, espantado de ter sido ludibriado pela moa tanto tempo, e quase sorriu, quase sacudia as asas que 
acabavam de crescer. Sou homem, disse-lhe o sexo em obscura vitria. De cada luta ou repouso, ele saa mais homem, ser homem se alimentava mesmo daquele vento que 
agora arrastava poeira pelas ruas do Cemitrio So Joo Batista. O mesmo vento de poeira que fazia com que o outro ser, o fmeo, se encolhesse ferido, como se nenhum 
agasalho fosse jamais proteger a sua nudez, esse vento das ruas.
O rapaz viu-a afastar-se, acompanhando-a com olhos pornogrficos e curiosos que no pouparam nenhum detalhe humilde da moa. A moa que de sbito ps-se a correr 
desesperadamente para no perder o nibus...
Num sobressalto, fascinado, o rapaz viu-a correr como uma doida para no perder o nibus, intrigado viu-a subir no nibus como um macaco de saia curta. O falso cigarro 
caiu-lhe da mo...
Alguma coisa incmoda o desequilibrara. O que era? Um momento de grande desconfiana o tomava. Mas o que era?! Urgentemente, inquietantemente: o que era? Ele a vira 
correr toda gil mesmo que o corao da moa, ele bem adivinhava, estivesse plido. E vira-a, toda cheia de impotente amor pela humanidade, subir como um macaco 
no nibus - e viu-a depois sentar-se quieta e comportada, recompondo a blusa enquanto esperava que o nibus andasse... Seria isso? Mas o que poderia haver nisso 
que o enchia de desconfiada ateno? Talvez o fato dela ter corrido  toa, pois o nibus ainda no ia partir, havia pois tempo... Ela nem precisava ter corrido... 
Mas o que havia nisso tudo que fazia com que ele erguesse as orelhas em escuta angustiada, numa surdez de quem jamais ouvir a explicao?
Ele tinha acabado de nascer um homem. Mas, mal assumira o seu nascimento, e estava tambm assumindo aquele peso no peito; mal assumira a sua glria, e uma experincia 
insondvel dava-lhe a primeira futura ruga. Ignorante, inquieto, mal assumira a masculinidade, e uma nova fome vida nascia, uma coisa dolorosa como um homem que 
nunca chora. Estaria ele tendo o primeiro medo de que alguma coisa fosse impossvel? A moa era um zero naquele nibus parado, e no entanto, homem que agora ele 
era, o rapaz de sbito precisava se inclinar para aquele nada, para aquela moa. E nem ao menos inclinar-se de igual para igual, nem ao menos inclinar-se para conceder... 
Mas, atolado no seu reino de homem, ele precisava dela. Para qu? para lembrar-se de uma clusula? para que ela ou outra qualquer no o deixasse ir longe demais 
e se perder? para que ele sentisse em sobressalto, como estava sentindo, que havia a possibilidade de erro? Ele precisava dela com fome para no esquecer que eram 
feitos da mesma carne, essa carne pobre da qual, ao subir no nibus como um macaco, ela parecia ter feito um caminho fatal. Que ! mas afinal que  que est me acontecendo? 
assustou-se ele.
Nada. Nada, e que no se exagere, fora apenas um instante de fraqueza e vacilao, nada mais que isso, no havia perigo.
Apenas um instante de fraqueza e vacilao. Mas dentro desse sistema de duro juzo final, que no permite nem um segundo de incredulidade seno o ideal desaba, ele 
olhou estonteado a longa rua - e tudo agora estava estragado e seco como se ele tivesse a boca cheia de poeira. Agora e enfim sozinho, estava sem defesa  merc 
da mentira pressurosa com que os outros tentavam ensin-lo a ser um homem. Mas e a mensagem?! a mensagem esfarelada na poeira que o vento arrastava para as grades 
do esgoto. Mame, disse ele.


MACACOS

Da primeira vez que tivemos em casa um mico foi perto do Ano-Novo. Estvamos sem gua e sem empregada, fazia-se fila para carne, o calor rebentara - e foi quando,
muda de perplexidade, vi o presente entrar em casa, j comendo banana, j examinando tudo com grande rapidez e um longo rabo. Mais parecia um macaco ainda no crescido, 
suas potencialidades eram tremendas. Subia pela roupa estendida na corda, de onde dava gritos de marinheiro, e jogava cascas de banana onde cassem. E eu exausta. 
Quando me esquecia e entrava distrada na rea de servio, o grande sobressalto: aquele homem alegre ali. Meu menino menor sabia, antes de eu saber, que eu me desfaria 
do gorila: "E se eu prometer que um dia o macaco vai adoecer e morrer, voc deixa ele ficar? e se voc soubesse que de qualquer jeito ele um dia vai cair da janela 
e morrer I embaixo?" Meus sentimentos desviavam o olhar. A inconscincia feliz e imunda do macaco-pequeno tornava-me responsvel pelo seu destino, j que ele prprio 
no aceitava culpas. Uma amiga entendeu de que amargura era feita a minha aceitao, de que crimes se alimentava meu ar sonhador, e rudemente me salvou: meninos 
de morro apareceram numa zoada feliz, levaram o homem que ria, e no desvitalizado Ano-Novo eu pelo menos ganhei uma casa sem macaco.
Um ano depois, acabava eu de ter uma alegria, quando ali em Copacabana vi o agrupamento. Um homem vendia macaquinhos. Pensei nos meninos, nas alegrias que eles me 
davam de graa, sem nada a ver com as preocupaes que tambm de graa me davam, imaginei uma cadeia de alegria: "Quem receber esta, que a passe a outro", e outro 
para outro, como o frmito num rastro de plvora. E ali mesmo comprei a que se chamaria Lisette.
Quase cabia na mo. Tinha saia, brincos, colar e pulseira de baiana. E um ar de imigrante que ainda desembarca com o traje tpico de sua terra. De imigrante tambm 
eram os olhos redondos.
Quanto a essa, era mulher em miniatura. Trs dias esteve conosco. Era de uma tal delicadeza de ossos. De uma tal extrema doura. Mais que os olhos, o olhar era arredondado. 
Cada movimento, e os brincos estremeciam; a saia sempre arrumada, o colar vermelho brilhante. Dormia muito, mas para comer era sbria e cansada. Seus raros carinhos 
eram s mordida leve que no deixava marca.
No terceiro dia estvamos na rea de servio admirando Lisette e o modo como ela era nossa. "Um pouco suave demais", pensei com saudade do meu gorila. E de repente 
foi meu corao respondendo com muita dureza: "Mas isso no  doura. Isto  morte". A secura da comunicao deixou-me quieta. Depois eu disse aos meninos: "Lisette 
est morrendo". Olhando-a, percebi ento at que ponto de amor j tnhamos ido. Enrolei Lisette num guardanapo, fui com os meninos para o primeiro pronto-socorro, 
onde o mdico no podia atender porque operava de urgncia um cachorro. Outro txi. - Lisette pensa que est passeando, mame - outro hospital. L deram-lhe oxignio.
E com o sopro de vida, subitamente revelou-se uma Lisette que desconhecamos. De olhos muito menos redondos, mais secretos, mais aos risos e na cara prognata e ordinria 
uma certa altivez irnica; um pouco mais de oxignio, e deu-lhe uma vontade de falar que ela mal agentava ser macaca; era, e muito teria a contar. Breve, porm, 
sucumbia de novo, exausta. Mais oxignio e dessa vez uma injeo de soro a cuja picada ela reagiu com um tapinha colrico, de pulseira tilintando. O enfermeiro sorriu: 
"Lisette, meu bem, sossega!"
O diagnstico: no ia viver, a menos que tivesse oxignio  mo e, mesmo assim, improvvel. "No se compra macaco na rua", censurou-me ele abanando a cabea, "s 
vezes j vem doente". No, tinha-se que comprar macaca certa, saber da origem, ter pelo menos cinco anos de garantia do amor, saber do que fizera ou no fizera, 
como se fosse para casar. Resolvi um instante com os meninos. E disse para o enfermeiro: "O senhor est gostando muito de Lisette. Pois se o senhor deixar ela passar 
uns dias perto do oxignio, no que ela ficar boa, ela  sua". Mas ele pensava. "Lisette  bonita!", implorei eu. " linda", concordou ele pensativo. Depois ele suspirou 
e disse: "Se eu curar Lisette, ela  sua". Fomos embora, de guardanapo vazio.
No dia seguinte telefonaram, e eu avisei aos meninos que Lisette morrera. O menor me perguntou: "Voc acha que ela morreu de brincos?" Eu disse que sim. Uma semana 
depois o mais velho me disse: "Voc parece tanto com Lisette!" "Eu tambm gosto de voc", respondi.


O OVO E A GALINHA

De manh na cozinha sobre a mesa vejo o ovo.
Olho o ovo com um s olhar. Imediatamente percebo que no se pode estar vendo um ovo. Ver um ovo nunca se mantm no presente: mal vejo um ovo e j se torna ter visto 
um ovo h trs milnios. - No prprio instante de se ver o ovo ele  a lembrana de um ovo. - S v o ovo quem j o tiver visto. - Ao ver o ovo  tarde demais: ovo 
visto, ovo perdido. - Ver o ovo  a promessa de um dia chegar a ver o ovo. - Olhar curto e indivisvel; se  que h pensamento; no h; h o ovo. - Olhar  o necessrio 
instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. - O ovo no tem um si-mesmo. Individualmente ele no existe.
Ver o ovo  impossvel: o ovo  supervisvel como h sons supersnicos. Ningum  capaz de ver o ovo. O co v o ovo? S as mquinas vem o ovo. O guindaste v o 
ovo. - Quando eu era antiga um ovo pousou no meu ombro. - O amor pelo ovo tambm no se sente. O amor pelo ovo  supersensvel. A gente no sabe que ama o ovo. - 
Quando eu era antiga fui depositria do ovo e caminhei de leve para no entornar o silncio do ovo. Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava 
vivo. - S quem visse o mundo veria o ovo. Como o mundo, o ovo  bvio.
O ovo no existe mais. Como a luz da estrela j morta, o ovo propriamente dito no existe mais. - Voc  perfeito, ovo.
Voc  branco. - A voc dedico o comeo. A voc dedico a primeira vez.
Ao ovo dedico a nao chinesa.
O ovo  uma coisa suspensa. Nunca pousou. Quando pousa, no foi ele quem pousou. Foi uma coisa que ficou embaixo do ovo. - Olho o ovo na cozinha com ateno superficial 
para no quebr-lo. Tomo o maior cuidado de no entend-lo. Sendo impossvel entend-lo, sei que se eu o entender  porque estou errando. Entender  a prova do erro. 
Entend-lo no  o modo de v-lo. - Jamais pensar no ovo  um modo de t-lo visto. - Ser que sei do ovo?  quase certo que sei. Assim: existo, logo sei. - O que 
eu no sei do ovo  o que realmente importa. O que eu no sei do ovo me d o ovo propriamente dito. - A Lua  habitada por ovos.
O ovo  uma exteriorizao. Ter uma casca  dar-se. - O ovo desnuda a cozinha. Faz da mesa um plano inclinado. O ovo expe. - Quem se aprofunda num ovo, quem v 
mais do que a superfcie do ovo, est querendo outra coisa: est com fome.
Ovo  a alma da galinha. A galinha desajeitada. O ovo certo. A galinha assustada. O ovo certo. Como um projtil parado. Pois ovo  ovo no espao. Ovo sobre azul. 
- Eu te amo, ovo. Eu te amo como uma coisa nem sequer sabe que ama outra coisa. - No toco nele. A aura de meus dedos  que v o ovo. No toco nele. - Mas dedicar-me 
 viso do ovo seria morrer para a vida mundana, e eu preciso da gema e da clara. - O ovo me v. O ovo me idealiza? O ovo me medita? No, o ovo apenas me v. E isento 
da compreenso que fere. - O ovo nunca lutou. Ele  um dom. - O ovo  invisvel a olho nu. De ovo a ovo chega-se a Deus, que  invisvel a olho nu. - O ovo ter 
sido talvez um tringulo que tanto rolou no espao que foi se ovalando. - O ovo  basicamente um jarro? Ter sido o primeiro jarro moldado pelos etruscos? No. O 
ovo  originrio da Macednia. L foi calculado, fruto da mais penosa espontaneidade. Nas areias da Macednia um homem com uma vara na mo desenhou-o. E depois apagou-o 
com o p nu.
Ovo  coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha  o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Me  para isso. - O ovo vive 
foragido por estar sempre adiantado demais para a sua poca. - Ovo por enquanto ser sempre revolucionrio. - Ele vive dentro da galinha para que no o chamem de 
branco. O ovo  branco mesmo. Mas no pode ser chamado de branco. No porque isso faa mal a ele, mas as pessoas que chamam a ovo de branco, essas pessoas morrem 
para a vida. Chamar de branco aquilo que  branco pode destruir a humanidade. Uma vez um homem foi acusado de ser o que ele era, e foi chamado de Aquele Homem. No 
tinham mentido: Ele era. Mas at hoje ainda no nos recuperamos, uns aps outros. A lei geral para continuarmos vivos: pode-se dizer "um rosto bonito", mas quem 
disser "o rosto" morre; por ter esgotado o assunto.
Com o tempo, o ovo se tornou um ovo de galinha. No o . Mas, adotado, usa-lhe o sobrenome. - Deve-se dizer "o ovo da galinha". Se se disser apenas "o ovo", esgota-se 
o assunto, e o mundo fica nu. - Em relao ao ovo, o perigo  que se descubra o que se poderia chamar de beleza, isto , sua veracidade. A veracidade do ovo no 
 verossmil. Se descobrirem, podem querer obrig-lo a se tornar retangular. O perigo no  para o ovo, ele no se tornaria retangular. (Nossa garantia  que ele 
no pode: no pode  a grande fora do ovo: sua grandiosidade vem da grandeza de no poder, que se irradia como um no querer.) Mas quem lutasse por torn-lo retangular 
estaria perdendo a prpria vida. O ovo nos pe, portanto, em perigo. Nossa vantagem  que o ovo  invisvel. E quanto aos iniciados, os iniciados disfaram o ovo.
Quanto ao corpo da galinha, o corpo da galinha  a maior prova de que o ovo no existe. Basta olhar para a galinha para se tornar bvio que o ovo  impossvel de 
existir.
E a galinha? O ovo  o grande sacrifcio da galinha. O ovo  a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo  o sonho inatingvel da galinha. A galinha ama o ovo. Ela 
no sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma um ovo, ela se salvaria? Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser uma 
galinha  a sobrevivncia da galinha. Sobreviver  a salvao. Pois parece que viver no existe. Viver leva  morte. Ento o que a galinha faz  estar permanentemente 
sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que  mortal. Ser uma galinha  isso. A galinha tem o ar constrangido.
 necessrio que a galinha no saiba que tem um ovo. Seno ela se salvaria como galinha, o que tambm no  garantido, mas perderia o ovo. Ento ela no sabe. Para 
que o ovo use a galinha  que a galinha existe. Ela era s para se cumprir, mas gostou. O desarvoramento da galinha vem disso: gostar no fazia parte de nascer. 
Gostar de estar vivo di. - Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha. A galinha no foi sequer chamada. A galinha  diretamente uma escolhida. - A 
galinha vive como em sonho. No tem senso da realidade. Todo o susto da galinha  porque esto sempre interrompendo o seu devaneio. A galinha  um grande sono. - 
A galinha sofre de um mal desconhecido. O mal desconhecido da galinha  o ovo. - Ela no sabe se explicar: "sei que o erro est em mim mesma", ela chama de erro 
a sua vida, "no sei mais o que sinto", etc.
"Etc, etc, etc."  o que cacareja o dia inteiro a galinha. A galinha tem muita vida interior. Para falar a verdade a galinha s tem mesmo  vida interior. A nossa 
viso de sua vida interior  o que ns chamamos de "galinha". A vida interior da galinha consiste em agir como se entendesse. Qualquer ameaa e ela grita em escndalo 
feito uma doida. Tudo isso para que o ovo no se quebre dentro dela. Ovo que se quebra dentro da galinha  como sangue.
A galinha olha o horizonte. Como se da linha do horizonte  que viesse vindo um ovo. Fora de ser um meio de transporte para o ovo, a galinha  tonta, desocupada 
e mope. Como poderia a galinha se entender se ela  a contradio de um ovo? O ovo ainda  o mesmo que se originou na Macednia. A galinha e sempre a tragdia mais 
moderna. Est sempre inutilmente a par.
E continua sendo redesenhada. Ainda no se achou a forma mais adequada para uma galinha. Enquanto meu vizinho atende ao telefone ele redesenha com lpis distrado 
a galinha. Mas para a galinha no h jeito: est na sua condio no servir a si prpria. Sendo, porm, o seu destino mais importante que ela, e sendo o seu destino 
o ovo, a sua vida pessoal no nos interessa.
Dentro de si a galinha no reconhece o ovo, mas fora de si tambm no o reconhece. Quando a galinha v o ovo pensa que est lidando com uma coisa impossvel. E com 
o corao batendo, com o corao batendo tanto, ela no o reconhece.
De repente olho o ovo na cozinha e s vejo nele a comida. No o reconheo, e meu corao bate. A metamorfose est se fazendo em mim: comeo a no poder mais enxergar 
o ovo. Fora de cada ovo particular, fora de cada ovo que se come, o ovo no existe. J no consigo mais crer num ovo. Estou cada vez mais sem fora de acreditar, 
estou morrendo, adeus, olhei demais um ovo e ele foi me adormecendo.
A galinha que no queria sacrificar a sua vida. A que optou por querer ser "feliz". A que no percebia que, se passasse a vida desenhando dentro de si como numa 
iluminura o ovo, ela estaria servindo. A que no sabia perder a si mesma. A que pensou que tinha penas de galinha para se cobrir por possuir pele preciosa, sem entender 
que as penas eram exclusivamente para suavizar a travessia ao carregar o ovo, porque o sofrimento intenso poderia prejudicar o ovo. A que pensou que o prazer lhe 
era um dom, sem perceber que era para que ela se distrasse totalmente enquanto o ovo se faria. A que no sabia que "eu"  apenas uma das palavras que se desenha 
enquanto se atende ao telefone, mera tentativa de buscar forma mais adequada. A que pensou que "eu" significa ter um si-mesmo. As galinhas prejudiciais ao ovo so 
aquelas que so um "eu" sem trgua. Nelas o "eu"  to constante que elas j no podem mais pronunciar a palavra "ovo". Mas, quem sabe, era disso mesmo que o ovo 
precisava. Pois se elas no estivessem to distradas, se prestassem ateno  grande vida que se faz dentro delas, atrapalhariam o ovo.
Comecei a falar da galinha e h muito j no estou falando mais da galinha. Mas ainda estou falando do ovo.
E eis que no entendo o ovo. S entendo ovo quebrado: quebro-o na frigideira.  deste modo indireto que me ofereo  existncia do ovo: meu sacrifcio  reduzir-me 
 minha vida pessoal. Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarado. E ter apenas a prpria vida , para quem j viu o ovo, um sacrifcio. Como aqueles 
que, no convento, varrem o cho e lavam a roupa, servindo sem a glria de funo maior, meu trabalho  o de viver os meus prazeres e as minhas dores.  necessrio 
que eu tenha a modstia de viver.
Pego mais um ovo na cozinha, quebro-lhe casca e forma. E a partir deste instante exato nunca existiu um ovo.  absolutamente indispensvel que eu seja uma ocupada 
e uma distrada. Sou indispensavelmente um dos que renegam. Fao parte da maonaria dos que viram uma vez o ovo e o renegam como forma de proteg-lo. Somos os que 
se abstm de destruir, e nisso se consomem. Ns, agentes disfarados e distribudos pelas funes menos reveladoras, ns s vezes nos reconhecemos. A um certo modo 
de olhar, a um jeito de dar a mo, ns nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E ento no  necessrio o disfarce: embora no se fale, tambm no se mente, 
embora no se diga a verdade, tambm no  mais necessrio dissimular. Amor  quando  concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque amor  a 
grande desiluso de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras iluses. H os que se voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecer a vida pessoal. 
E o contrrio: amor  finalmente a pobreza. Amor  no ter. Inclusive amor  a desiluso do que se pensava que era amor. E no  prmio, por isso no envaidece, 
amor no  prmio,  uma condio concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal. Isso no faz do amor uma exceo honrosa; 
ele  exatamente concedido aos maus agentes, queles que atrapalhariam tudo se no lhes fosse permitido adivinhar vagamente.
A todos os agentes so dadas muitas vantagens para que o ovo se faa. No  caso de se ter inveja pois, inclusive algumas das condies, piores do que as dos outros, 
so apenas as condies ideais para o ovo. Quanto ao prazer dos agentes, eles tambm o recebem sem orgulho. Austeramente vivem todos os prazeres: inclusive  o nosso 
sacrifcio para que o ovo se faa. J nos foi imposta, inclusive, uma natureza toda adequada a muito prazer. O que facilita. Pelo menos torna menos penoso o prazer.
H casos de agentes que se suicidam: acham insuficientes as pouqussimas instrues recebidas, e se sentem sem apoio. Houve o caso do agente que revelou publicamente 
ser agente porque lhe foi intolervel no ser compreendido, e ele no suportava mais no ter o respeito alheio: morreu atropelado quando saa de um restaurante. 
Houve um outro que nem precisou ser eliminado: ele prprio se consumiu lentamente na revolta, sua revolta veio quando ele descobriu que as duas ou trs instrues 
recebidas no incluam nenhuma explicao. Houve outro, tambm eliminado, porque achava que "a verdade deve ser corajosamente dita", e comeou em primeiro lugar 
a procur-la; dele se disse que morreu em nome da verdade, mas o fato  que ele estava apenas dificultando a verdade com sua inocncia; sua aparente coragem era 
tolice, e era ingnuo o seu desejo de lealdade, ele no compreendera que ser leal no  coisa limpa, ser leal  ser desleal para com todo o resto. Esses casos extremos 
de morte no so por crueldade.  que h um trabalho, digamos csmico, a ser feito, e os casos individuais infelizmente no podem ser levados em considerao. Para 
os que sucumbem e se tornam individuais  que existem as instituies, a caridade, a compreenso que no discrimina motivos, a nossa vida humana enfim.
Os ovos estalam na frigideira, e mergulhada no sonho preparo o caf da manh. Sem nenhum senso da realidade, grito pelas crianas que brotam de vrias camas, arrastam 
cadeiras e comem, e o trabalho do dia amanhecido comea, gritado e rido e comido, clara e gema, alegria entre brigas, dia que  o nosso sal e ns somos o sal do 
dia, viver  extremamente tolervel, viver ocupa e distrai, viver faz rir.
E me faz sorrir no meu mistrio. O meu mistrio  que eu ser apenas um meio, e no um fim, tem-me dado a mais maliciosa das liberdades: no sou boba e aproveito. 
Inclusive, fao um mal aos outros que, francamente. O falso emprego que me deram para disfarar a minha verdadeira funo, pois aproveito o falso emprego e dele 
fao o meu verdadeiro; inclusive o dinheiro que me do como diria para facilitar minha vida de modo a que o ovo se faa, pois esse dinheiro eu tenho usado para 
outros fins, desvio de verba, ultimamente comprei aes da Brahma e estou rica. A isso tudo ainda chamo ter a necessria modstia de viver. E tambm o tempo que 
me deram, e que nos do apenas para que no cio honrado o ovo se faa, pois tenho usado esse tempo para prazeres ilcitos e dores ilcitas, inteiramente esquecida 
do ovo. Esta  a minha simplicidade.
Ou  isso mesmo que eles querem que me acontea, exatamente para que o ovo se cumpra?  liberdade ou estou sendo mandada? Pois venho notando que tudo o que  erro 
meu tem sido aproveitado. Minha revolta  que para eles eu no sou nada, eu sou apenas preciosa: eles cuidam de mim segundo por segundo, com a mais absoluta falta 
de amor; sou apenas preciosa. Com o dinheiro que me do, ando ultimamente bebendo. Abuso de confiana? Mas  que ningum sabe como se sente por dentro aquele cujo 
emprego consiste em fingir que est traindo, e que termina acreditando na prpria traio. Cujo emprego consiste em diariamente esquecer. Aquele de quem  exigida 
a aparente desonra. Nem meu espelho reflete mais um rosto que seja meu. Ou sou um agente, ou  a traio mesmo.
Mas durmo o sono dos justos por saber que minha vida ftil no atrapalha a marcha do grande tempo. Pelo contrrio: parece que  exigido de mim que eu seja extremamente 
ftil,  exigido de mim inclusive que eu durma como um justo. Eles me querem ocupada e distrada, e no lhes importa como. Pois, com minha ateno errada e minha 
tolice grave, eu poderia atrapalhar o que se est fazendo atravs de mim.  que eu prpria, eu propriamente dita, s tenho mesmo servido para atrapalhar. O que me 
revela que talvez eu seja um agente  a idia de que meu destino me ultrapassa: pelo menos isso eles tiveram mesmo que me deixar adivinhar, eu era daqueles que fariam 
mal o trabalho se ao menos no adivinhassem um pouco; fizeram-me esquecer o que me deixaram adivinhar, mas vagamente ficou-me a noo de que meu destino me ultrapassa, 
e de que sou instrumento do trabalho deles. Mas de qualquer modo era s instrumento que eu poderia ser, pois o trabalho no poderia ser mesmo meu. J experimentei 
me estabelecer por conta prpria e no deu certo; ficou-me at hoje essa mo trmula. Tivesse eu insistido um pouco mais e teria perdido para sempre a sade. Desde 
ento, desde essa malograda experincia, procuro raciocinar deste modo: que j me foi dado muito, que eles j me concederam tudo o que pode ser concedido; e que 
outros agentes, muito superiores a mim, tambm trabalharam apenas para o que no sabiam. E com as mesmas pouqussimas instrues. J me foi dado muito; isto, por 
exemplo: uma vez ou outra, com o corao batendo pelo privilgio, eu pelo menos sei que no estou reconhecendo! com o corao batendo de emoo, eu pelo menos no 
compreendo! com o corao batendo de confiana, eu pelo menos no sei.
Mas e o ovo? Este  um dos subterfgios deles: enquanto eu falava sobre o ovo, eu tinha esquecido do ovo. "Falai, falai", instruram-me eles. E o ovo fica inteiramente 
protegido por tantas palavras. Falai muito,  uma das instrues, estou to cansada.
Por devoo ao ovo, eu o esqueci. Meu necessrio esquecimento. Meu interesseiro esquecimento. Pois o ovo  um esquivo. Diante de minha adorao possessiva ele poderia 
retrair-se e nunca mais voltar. Mas se ele for esquecido. Se eu fizer o sacrifcio de viver apenas a minha vida e de esquec-lo. Se o ovo for impossvel. Ento - 
livre, delicado, sem mensagem alguma para mim - talvez uma vez ainda ele se locomova do espao at esta janela que desde sempre deixei aberta. E de madrugada baixe 
no nosso edifcio. Sereno at a cozinha. Iluminando-a de minha palidez.


TENTAO

Ela estava com soluo. E como se no bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.
Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabea da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ningum na rua, s uma pessoa esperando 
inutilmente no ponto do bonde. E como se no bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluo a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava 
conformado na mo. Que fazer de uma menina ruiva com soluo? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra 
de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntria. Que importava se num dia futuro sua marca ia faz-la erguer insolente uma cabea de mulher? Por enquanto ela 
estava sentada num degrau faiscante da porta, s duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com ala partida. Segurava-a com um amor conjugai j 
habituado, apertando-a contra os joelhos.
Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmo em Graja. A possibilidade de comunicao surgiu no ngulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, 
e encarnada na figura de um co. Era um basset lindo e miservel, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.
L vinha ele trotando,  frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
A menina abriu os olhos pasmada. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua lngua vibrava. Ambos se olhavam.
Entre tantos seres que esto prontos para se tornarem donos de outro ser, I estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, 
sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, sria. Quanto tempo se passava? Um grande soluo sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Tambm ela passou 
por cima do soluo e continuou a fit-lo.
Os plos de ambos eram curtos, vermelhos.
Que foi que se disseram? No se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois no havia tempo. Sabe-se tambm que sem falar eles se pediam. Pediam-se 
com urgncia, com encabulamento, surpreendidos.
No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a soluo para a criana vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos ces maiores, 
de tantos esgotos secos - I estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Graja. Mais um instante 
e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez  gravidade com que se pediam.
Mas ambos eram comprometidos.
Ela com sua infncia impossvel, o centro da inocncia que s se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mos, numa 
mudez que nem pai nem me compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruada sobre a bolsa e os joelhos, at v-lo dobrar a outra esquina.
Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma s vez olhou para trs.




VIAGEM A PETRPOLIS

Era uma velha sequinha que, doce e obstinada, no parecia compreender que estava s no mundo. Os olhos lacrimejavam sempre, as mos repousavam sobre o vestido preto 
e opaco, velho documento de sua vida. No tecido j endurecido encontravam-se pequenas crostas de po coladas pela baba que lhe ressurgia agora em lembrana do bero. 
L estava uma ndoa amarelada, de um ovo que comera h duas semanas. E as marcas dos lugares onde dormia. Achava sempre onde dormir, casa de um, casa de outro. Quando 
lhe perguntavam o nome, dizia com a voz purificada pela fraqueza e por longussimos anos de boa educao:
- Mocinha.
As pessoas sorriam. Contente pelo interesse despertado, explicava:
- Nome, nome mesmo,  Margarida.
O corpo era pequeno, escuro, embora ela tivesse sido alta e clara. Tivera pai, me, marido, dois filhos. Todos aos poucos tinham morrido. S ela restara com os olhos 
sujos e expectantes quase cobertos por um tnue veludo branco. Quando lhe davam alguma esmola davam-lhe pouca, pois ela era pequena e realmente no precisava comer 
muito. Quando lhe davam cama para dormir davam-na estreita e dura porque Margarida fora aos poucos perdendo volume. Ela tambm no agradecia muito: sorria e balanava 
a cabea.
Dormia agora, no se sabia mais por que motivo, no quarto dos fundos de uma casa grande, numa rua larga cheia de rvores, em Botafogo. A famlia achava graa em 
Mocinha mas esquecia-se dela a maior parte do tempo.  que tambm se tratava de uma velha misteriosa. Levantava-se de madrugada, arrumava sua cama de ano e disparava 
lpida como se a casa estivesse pegando fogo. Ningum sabia por onde andava. Um dia uma das moas da casa perguntou-lhe o que andava fazendo. Respondeu com um sorriso 
gentil:
- Passeando.
Acharam graa que uma velha, vivendo de caridade, andasse a passear. Mas era verdade. Mocinha nascera no Maranho, onde sempre vivera. Viera para o Rio no h muito, 
com uma senhora muito boa que pretendia intern-la num asilo, mas depois no pudera ser: a senhora viajara para Minas e dera algum dinheiro para Mocinha se arrumar 
no Rio. E a velha passeava para ficar conhecendo a cidade. Bastava alis uma pessoa sentar-se num banco de uma praa e j via o Rio de Janeiro.
Sua vida corria assim sem atropelos, quando a famlia da casa de Botafogo um dia surpreendeu-se de t-la em casa h tanto tempo, e achou que assim tambm era demais. 
De algum modo tinham razo. Todos I eram muito ocupados, de vez em quando surgiam casamentos, festas, noivados, visitas. E quando passavam atarefados pela velha, 
ficavam surpreendidos como se fossem interrompidos, abordados com uma pancadinha no ombro: "olha!". Sobretudo uma das moas da casa sentia um mal-estar irritado, 
a velha enervava-a sem motivo. Sobretudo o sorriso permanente, embora a moa compreendesse tratar-se de um ricto inofensivo. Talvez por falta de tempo, ningum falou 
no assunto. Mas logo que algum cogitou de mand-la morar em Petrpolis, na casa da cunhada alem, houve uma adeso mais animada do que uma velha poderia provocar.
Quando, pois, o filho da casa foi com a namorada e as duas irms passar um fim-de-semana em Petrpolis, levou a velha no carro.
Por que Mocinha no dormiu na noite anterior?  idia de uma viagem, no corpo endurecido o corao se desenferrujava todo seco e descompassado, como se ela tivesse 
engolido uma plula grande sem gua. Em certos momentos nem podia respirar. Passou a noite falando, s vezes alto. A excitao do passeio prometido e a mudana de 
vida, de repente aclaravam-lhe algumas idias. Lembrou-se de coisas que dias antes juraria nunca terem existido. A comear pelo filho atropelado, morto debaixo de 
um bonde no Maranho - se ele tivesse vivido no trfego do Rio de Janeiro, a mesmo  que morria atropelado. Lembrou-se dos cabelos do filho, das roupas dele. Lembrou-se 
da xcara que Maria Rosa quebrara e de como ela gritara com Maria Rosa. Se soubesse que a filha morreria de parto,  claro que no precisaria gritar. E lembrou-se 
do marido. S relembrava o marido em mangas de camisa. Mas no era possvel, estava certa de que ele ia  repartio com o uniforme de contnuo, ia a festas de palet, 
sem falar que no poderia ter ido ao enterro do filho e da filha em mangas de camisa. A procura do palet do marido ainda mais cansou a velha que se virava com leveza 
na cama. De repente descobriu que a cama era dura.
- Que cama dura, disse bem alto no meio da noite.
 que se sensibilizara toda. Partes do corpo de que no tinha conscincia h longo tempo reclamavam agora a sua ateno. E de sbito - mas que fome furiosa! Alucinada, 
levantou-se, desamarrou a pequena trouxa, tirou um pedao de po com manteiga ressecada que guardava secretamente h dois dias. Comeu o po como um rato, arranhando 
at o sangue os lugares da boca onde s havia gengiva. E com a comida, cada vez mais se reanimava. Conseguiu, embora fugazmente, ter a viso do marido se despedindo 
para ir ao trabalho. S depois que a lembrana se desvaneceu, viu que esquecera de observar se ele estava ou no em mangas de camisa. Deitou-se de novo, coando-se 
toda ardente. Passou o resto da noite nesse jogo de ver por um instante e depois no conseguir ver mais. De madrugada adormeceu.
E pela primeira vez foi preciso acord-la. Ainda no escuro, a moa veio cham-la, de leno amarrado na cabea e j de maleta na mo. Inesperadamente Mocinha pediu 
uns instantes para pentear os cabelos. As mos trmulas seguravam o pente quebrado. Ela se penteava, ela se penteava. Nunca fora mulher de ir passear sem antes pentear 
bem os cabelos.
Quando enfim se aproximou do automvel, o rapaz e as moas se surpreenderam com seu ar alegre e com os passos rpidos. "Tem mais sade do que eu!", brincou o rapaz. 
 moa da casa ocorreu: "E eu que at tinha pena dela".
Mocinha sentou-se junto da janela do carro, um pouco apertada pelas duas irms acomodadas no mesmo banco. Nada dizia, sorria. Mas quando o automvel deu a primeira 
arrancada, jogando-a para trs, sentiu dor no peito. No era s por alegria, era um dilaceramento. O rapaz virou-se para trs:
- No v enjoar, vov!
As moas riram, principalmente a que se sentara na frente, a que de vez em quando encostava a cabea no ombro do rapaz. Por cortesia, a velha quis responder, mas 
no pde. Quis sorrir, no conseguiu. Olhou para todos, com olhos lacrimejantes, o que os outros j sabiam que no significava chorar. Qualquer coisa em seu rosto 
amorteceu um pouco a alegria da moa da casa e deu-lhe um ar obstinado.
A viagem foi muito bonita.
As moas estavam contentes, Mocinha agora j recomeara a sorrir. E, embora o corao batesse muito, tudo estava melhor. Passaram por um cemitrio, passaram por 
um armazm, rvore, duas mulheres, um soldado, gato! letras - tudo engolido pela velocidade.
Quando Mocinha acordou no sabia mais aonde estava. A estrada j havia amanhecido totalmente: era estreita e perigosa. A boca da velha ardia, os ps e as mos distanciavam-se 
gelados do resto do corpo. As moas falavam, a da frente apoiara a cabea no ombro do rapaz. Os embrulhos despencavam a todo instante.
Ento a cabea de Mocinha comeou a trabalhar. O marido apareceu-lhe de palet - achei, achei! o palet estava pendurado o tempo todo no cabide. Lembrou-se do nome 
da amiga de
Maria Rosa, daquela que morava defronte: Elvira, e a me de Elvira at era aleijada. As lembranas quase lhe arrancavam uma exclamao. Ento ela movia os lbios 
devagar e dizia baixo algumas palavras.
As moas falavam:
- Ah, obrigada, um presente desses eu rejeito!
Foi quando Mocinha comeou finalmente a no entender. Que fazia ela no carro? como conhecera seu marido e aonde? como  que a me de Maria Rosa e Rafael, a prpria 
me deles, estava no automvel com aquela gente? Logo depois acostumou-se de novo.
O rapaz disse para as irms:
- Acho melhor no pararmos defronte, para evitar histrias. Ela salta do carro, a gente ensina aonde , ela vai sozinha e d o recado de que  para ficar.
Uma das moas da casa perturbou-se: receava que o irmo, com uma incompreenso tpica de homem, falasse demais diante da namorada. Eles no visitavam mais o irmo 
de Petrpolis, e muito menos a cunhada.
-  sim, interrompeu-o a tempo antes que ele falasse demais. Olha, Mocinha, voc entra por aquele beco e no h como errar: na casa de tijolo vermelho, voc pergunta 
por Arnaldo, meu irmo, ouviu? Arnaldo. Diz que I em casa voc no podia mais ficar, diz que na casa de Arnaldo tem lugar e que voc at pode vigiar um pouco o 
garoto, viu...
Mocinha desceu do automvel, e durante um tempo ainda ficou de p mas pairando entontecida sobre rodas. O vento fresco soprava-lhe a saia comprida por entre as pernas.
Arnaldo no estava. Mocinha entrou na saleta onde a dona da casa, com um pano contra p amarrado na cabea, tomava caf. Um menino louro - decerto aquele que Mocinha 
deveria vigiar - estava sentado diante de um prato de tomates e cebolas e comia sonolento, enquanto as pernas brancas e sardentas balanavam-se sob a mesa. A alem 
encheu-lhe o prato de mingau de aveia, empurrou-lhe na mesa po torrado com manteiga. As moscas zuniam. Mocinha estava fraca. Se bebesse um pouco de caf quente 
talvez passasse o frio no corpo.
A mulher alem examinava-a de vez em quando em silncio: no acreditara na histria da recomendao da cunhada, embora "de I" tudo fosse de se esperar. Mas talvez 
a velha tivesse ouvido de algum o endereo, at num bonde, por acaso, isso s vezes acontecia, bastava abrir um jornal e ver que acontecia.  que aquela histria 
no estava nada bem contada, e a velha tinha um ar sabido, nem sequer escondia o sorriso. O melhor seria no deix-la sozinha na saleta, com o armrio cheio de loua 
nova.
- Preciso antes tomar caf, disse-lhe. Depois que meu marido chegar, veremos o que se pode fazer.
Mocinha no entendeu muito bem, pois ela falava como gringa. Mas entendeu que era para continuar sentada. O cheiro de caf dava-lhe vontade, e uma vertigem que escurecia 
a sala toda. Os lbios ardiam secos e o corao batia todo independente. Caf, caf, olhava ela sorrindo e lacrimejando. A seus ps o cachorro mordia a prpria pata, 
rosnando. A empregada, tambm meio gringa, alta, de pescoo muito fino e seios grandes, a empregada trouxe um prato de queijo branco e mole. Sem uma palavra, a me 
esmagou bastante queijo no po torrado e empurrou-o para o lado do filho. O menino comeu tudo e, com a barriga grande, agarrou um palito e levantou-se:
- Me, cem cruzeiros.
- No. Para qu?
- Chocolate.
- No. Amanh  que  domingo.
Uma pequena luz iluminou Mocinha: domingo? que fazia naquela casa em vsperas de domingo? Nunca saberia dizer. Mas bem que gostaria de tomar conta daquele menino. 
Sempre gostara de criana loura: todo menino louro se parecia com o Menino Jesus. O que fazia naquela casa? Mandavam-na  toa de um lado para outro, mas ela contaria 
tudo, iam ver. Sorriu encabulada: no contaria era nada, pois o que queria mesmo era caf.
A dona da casa gritou para dentro, e a empregada indiferente trouxe um prato fundo, cheio de papa escura. Gringos comiam muito de manh, isso Mocinha vira mesmo 
no Maranho. A dona da casa, com seu ar sem brincadeiras porque gringo em Petrpolis era to srio como no Maranho, a dona da casa tirou uma colherada de queijo 
branco, triturou-o com o garfo e misturou-o  papa. Para dizer verdade, porcaria mesmo de gringo. Ps-se ento a comer, absorta, com o mesmo ar de fastio que os 
gringos do Maranho tm. Mocinha olhava. O cachorro rosnava s pulgas.
Afinal Arnaldo apareceu em pleno sol, a cristaleira brilhando. Ele no era louro. Falou em voz baixa com a mulher, e depois de demorada confabulao, informou firme 
e curioso para Mocinha:
- No pode ser no, aqui no tem lugar no.
E como a velha no protestasse e continuasse a sorrir, ele falou mais alto:
- No tem lugar no, ouviu?
Mas Mocinha continuava sentada. Arnaldo ensaiou um gesto. Olhou para as duas mulheres na sala e vagamente sentiu o cmico do contraste. A esposa esticada e vermelha. 
E mais adiante a velha murcha e escura, com uma sucesso de peles secas penduradas nos ombros. Diante do sorriso malicioso da velha, ele se impacientou:
- E agora estou muito ocupado! Eu lhe dou dinheiro e voc toma o trem para o Rio, ouviu? volta para a casa de minha me, chega I e diz: casa de Arnaldo no  asilo, 
viu? aqui no tem lugar. Diz assim: casa de Arnaldo no  asilo no, viu!
Mocinha pegou no dinheiro e dirigiu-se  porta. Quando Arnaldo j ia se sentar para comer, Mocinha reapareceu:
- Obrigada, Deus lhe ajude.
Na rua, de novo pensou em Maria Rosa, Rafael, o marido. No sentia a menor saudade. Mas lembrava-se. Dirigiu-se para a estrada, afastando-se cada vez mais da estao. 
Sorriu como se pregasse uma pea a algum: em vez de voltar logo, ia antes passear um pouco. Um homem passou. Ento uma coisa muito curiosa, e sem nenhum interesse, 
foi iluminada: quando ela era ainda uma mulher, os homens. No conseguia ter uma imagem precisa das figuras dos homens, mas viu a si prpria com blusas claras e 
cabelos compridos. A sede voltou-lhe, queimando a garganta. O sol ardia, faiscava em cada seixo branco. A estrada de Petrpolis  muito bonita.
No chafariz de pedra negra e molhada, em plena estrada, uma preta descala enchia uma lata de gua.
Mocinha ficou parada, espreitando. Viu depois a preta reunir as mos em concha e beber.
Quando a estrada ficou de novo vazia, Mocinha adiantou-se como se sasse de um esconderijo e aproximou-se sorrateira do chafariz. Os fios de gua escorreram geladssimos 
por dentro das mangas at os cotovelos, pequenas gotas brilharam suspensas nos cabelos.
Saciada, espantada, continuou a passear com os olhos mais abertos, em ateno s voltas violentas que a gua pesada dava no estmago, acordando pequenos reflexos 
pelo resto do corpo como luzes.
A estrada subia muito. A estrada era mais bonita que o Rio de Janeiro, e subia muito. Mocinha sentou-se numa pedra que havia junto de uma rvore, para poder apreciar. 
O cu estava altssimo, sem nenhuma nuvem. E tinha muito passarinho que voava do abismo para a estrada. A estrada branca de sol se estendia sobre um abismo verde. 
Ento, como estava cansada, a velha encostou a cabea no tronco da rvore e morreu.


A SOLUO

Chamava-se Almira e engordara demais. Alice era a sua maior amiga. Pelo menos era o que dizia a todos com aflio, querendo compensar com a prpria veemncia a falta
de amizade que a outra lhe dedicava.
Alice era pensativa e sorria sem ouvi-la, continuando a bater a mquina.
 medida que a amizade de Alice no existia, a amizade de Almira mais crescia. Alice era de rosto oval e aveludado. O nariz de Almira brilhava sempre. Havia no rosto
de Almira uma avidez que nunca lhe ocorrera disfarar: a mesma que tinha por comida, seu contato mais direto com o mundo.
Por que Alice tolerava Almira, ningum entendia. Ambas eram datilgrafas e colegas, o que no explicava. Ambas lanchavam juntas, o que no explicava. Saam do escritrio
 mesma hora e esperavam conduo na mesma fila. Almira sempre pajeando Alice. Esta, distante e sonhadora, deixando-se adorar. Alice era pequena e delicada. Almira
tinha o rosto muito largo, amarelado e brilhante: com ela o batom no durava nos lbios, ela era das que comem o batom sem querer.
Gostei tanto do programa da Rdio Ministrio da Educao, dizia Almira procurando de algum modo agradar. Mas Alice recebia tudo como se lhe fosse devido, inclusive
a pera do Ministrio da Educao.
S a natureza de Almira era delicada. Com todo aquele corpanzil, podia perder uma noite de sono por ter dito uma palavra menos bem dita. E um pedao de chocolate
podia de repente ficar-lhe amargo na boca ao pensamento de que fora injusta. O que nunca lhe faltava era chocolate na bolsa, e sustos pelo que pudesse ter feito.
No por bondade. Eram talvez nervos frouxos num corpo frouxo.
Na manh do dia em que aconteceu, Almira saiu para o trabalho correndo, ainda mastigando um pedao de po. Quando chegou ao escritrio, olhou para a mesa de Alice
e no a viu. Uma hora depois esta aparecia de olhos vermelhos. No quis explicar nem respondeu s perguntas nervosas de Almira. Almira quase chorava sobre a mquina.
Afinal, na hora do almoo, implorou a Alice que aceitasse almoarem juntas, ela pagaria.
Foi exatamente durante o almoo que se deu o fato.
Almira continuava a querer saber por que Alice viera atrasada e de olhos vermelhos. Abatida, Alice mal respondia. Almira comia com avidez e insistia com os olhos
cheios de lgrimas.
- Sua gorda! disse Alice de repente, branca de raiva. Voc no pode me deixar em paz?!
Almira engasgou-se com a comida, quis falar, comeou a gaguejar. Dos lbios macios de Alice haviam sado palavras que no conseguiam descer com a comida pela garganta
de Almira G. de Almeida.
- Voc  uma chata e uma intrometida, rebentou de novo Alice. Quer saber o que houve, no ? Pois vou lhe contar, sua chata:  que Zequinha foi embora para Porto
Alegre e no vai mais voltar! Agora est contente, sua gorda?
Na verdade Almira parecia ter engordado mais nos ltimos momentos, e com comida ainda parada na boca.
Foi ento que Almira comeou a despertar. E, como se fosse uma magra, pegou o garfo e enfiou-o no pescoo de Alice. O restaurante, ao que se disse no jornal, levantou-se
como uma s pessoa. Mas a gorda, mesmo depois de feito o gesto, continuou sentada olhando para o cho, sem ao menos olhar o sangue da outra.
Alice foi ao Pronto-Socorro, de onde saiu com curativos e os olhos ainda arregalados de espanto. Almira foi presa em flagrante.
Algumas pessoas observadoras disseram que naquela amizade bem que havia dente-de-coelho. Outras, amigas da famlia, contaram que a av de Almira, dona Altamiranda,
fora mulher muito esquisita. Ningum se lembrou de que os elefantes, de acordo com os estudiosos do assunto, so criaturas extremamente sensveis, mesmo nas grossas
patas.
Na priso Almira comportou-se com docilidade e alegria, talvez melanclica, mas alegria mesmo. Fazia graas para as companheiras. Finalmente tinha companheiras.
Ficou encarregada da roupa suja, e dava-se muito bem com as guardies, que vez por outra lhe arranjavam uma barra de chocolate. Exatamente como para um elefante
no circo.





EVOLUO DE UMA MIOPIA

Se era inteligente, no sabia. Ser ou no inteligente dependia da instabilidade dos outros. s vezes o que ele dizia despertava de repente nos adultos um olhar satisfeito
e astuto. Satisfeito, por guardarem em segredo o fato de acharem-no inteligente e no o mimarem; astuto, por participarem mais do que ele prprio daquilo que ele
dissera. Assim, pois, quando era considerado inteligente, tinha ao mesmo tempo a inquieta sensao de inconscin-cia: alguma coisa lhe havia escapado. A chave de
sua inteligncia tambm lhe escapava. Pois s vezes, procurando imitar a si mesmo, dizia coisas que iriam certamente provocar de novo o rpido movimento no tabuleiro
de damas, pois era esta a impresso de mecanismo automtico que ele tinha dos membros de sua famlia: ao dizer alguma coisa inteligente, cada adulto olharia rapidamente
o outro, com um sorriso claramente suprimido dos lbios, um sorriso apenas indicado com os olhos, "como ns sorriramos agora, se no fssemos bons educadores" -
e, como numa quadrilha de dana de filme de faroeste, cada um teria de algum modo trocado de par e lugar. Em suma, eles se entendiam, os membros de sua famlia;
e entendiam-se  sua custa. Fora de se entenderem  sua custa, desentendiam-se permanentemente, mas como nova forma de danar uma quadrilha: mesmo quando se desentendiam,
sentia que eles estavam submissos s regras de um jogo, como se tivessem concordado em se desentenderem.
s vezes, pois, ele tentava reproduzir suas prprias frases de sucesso, as que haviam provocado movimento no tabuleiro de damas. No era propriamente para reproduzir
o sucesso passado, nem propriamente para provocar o movimento mudo da famlia. Mas para tentar apoderar-se da chave de sua "inteligncia". Na tentativa de descoberta
de leis e causas, porm, falhava. E, ao repetir uma frase de sucesso, dessa vez era recebido pela distrao dos outros. Com os olhos pestanejando de curiosidade,
no comeo de sua miopia, ele se indagava por que uma vez conseguia mover a famlia, e outra vez no. Sua inteligncia era julgada pela falta de disciplina alheia?
Mais tarde, quando substituiu a instabilidade dos outros pela prpria, entrou por um estado de instabilidade consciente. Quando homem, manteve o hbito de pestanejar
de repente ao prprio pensamento, ao mesmo tempo que franzia o nariz, o que deslocava os culos - exprimindo com esse cacoete uma tentativa de substituir o julgamento
alheio pelo prprio, numa tentativa de aprofundar a prpria perplexidade. Mas era um menino com capacidade de esttica: sempre fora capaz de manter a perplexidade
como perplexidade, sem que ela se transformasse em outro sentimento.
Que a sua prpria chave no estava com ele, a isso ainda menino habituou-se a saber, e dava piscadelas que, ao franzirem o nariz, deslocavam os culos. E que a chave
no estava com ningum, isso ele foi aos poucos adivinhando sem nenhuma desiluso, sua tranqila miopia exigindo lentes cada vez mais fortes.
Por estranho que parecesse, foi exatamente por intermdio desse estado de permanente incerteza e por intermdio da prematura aceitao de que a chave no est com
ningum - foi atravs disso tudo que ele foi crescendo normalmente, e vivendo em serena curiosidade. Paciente e curioso. Um pouco nervoso, diziam, referindo-se ao
tique dos culos. Mas "nervoso" era o nome que a famlia estava dando  instabilidade de julgamento da prpria famlia. Outro nome que a instabilidade dos adultos
lhe dava era o de "bem comportado", de "dcil". Dando assim um nome no ao que ele era, mas  necessidade varivel dos momentos.
Uma vez ou outra, na sua extraordinria calma de culos, acontecia dentro dele algo brilhante e um pouco convulsivo como uma inspirao.
Foi, por exemplo, quando lhe disseram que da a uma semana ele iria passar um dia inteiro na casa de uma prima. Essa prima era casada, no tinha filhos e adorava
crianas. "Dia inteiro" inclua almoo, merenda, jantar, e voltar quase adormecido para casa. E quanto  prima, a prima significava amor extra, com suas inesperadas
vantagens e uma incalculvel pressurosidade - e tudo isso daria margem a que pedidos extraordinrios fossem atendidos. Na casa dela, tudo aquilo que ele era teria
por um dia inteiro um valor garantido. Ali o amor, mais facilmente estvel de apenas um dia, no daria oportunidade a instabilidades de julgamento: durante um dia
inteiro, ele seria julgado o mesmo menino.
Na semana que precedeu "o dia inteiro", comeou por tentar decidir se seria ou no natural com a prima. Procurava decidir se logo de entrada diria alguma coisa inteligente
- o que resultaria que durante o dia inteiro ele seria julgado como inteligente. Ou se faria, logo de entrada, algo que ela julgasse "bem comportado", o que faria
com que durante o dia inteiro ele seria o bem comportado. Ter a possibilidade de escolher o que seria, e pela primeira vez por um longo dia, fazia-o endireitar os
culos a cada instante.
Aos poucos, durante a semana precedente, o crculo de possibilidades foi se alargando. E, com a capacidade que tinha de suportar a confuso - ele era minucioso e
calmo em relao  confuso - terminou descobrindo que at poderia arbitrariamente decidir ser por um dia inteiro um palhao, por exemplo. Ou que poderia passar
esse dia de um modo bem triste, se assim resolvesse. O que o tranqilizava era saber que a prima, com seu amor sem filhos e sobretudo com a falta de prtica de lidar
com crianas, aceitaria o modo que ele decidisse de como ela o julgaria. Outra coisa que o ajudava era saber que nada do que ele fosse durante aquele dia iria realmente
alter-lo. Pois prematuramente - tratava-se de criana precoce - era superior  instabilidade alheia e  prpria instabilidade. De algum modo pairava acima da prpria
miopia e da dos outros. O que lhe dava muita liberdade. s vezes apenas a liberdade de uma incredulidade tranqila. Mesmo quando se tornou homem, com lentes espessssimas,
nunca chegou a tomar conscincia dessa espcie de superioridade que tinha sobre si mesmo.
A semana precedente  visita  prima foi de antecipao contnua. s vezes seu estmago se apertava apreensivo:  que naquela casa sem meninos ele estaria totalmente
 merc do amor sem seleo de uma mulher. "Amor sem seleo" representava uma estabilidade ameaadora: seria permanente, e na certa resultaria num nico modo de
julgar, e isso era a estabilidade. A estabilidade, j ento, significava para ele um perigo: se os outros errassem no primeiro passo da estabilidade, o erro se tornaria
permanente, sem a vantagem da instabilidade, que  a de uma correo possvel.
Outra coisa que o preocupava de antemo era o que faria o dia inteiro na casa da prima, alm de comer e ser amado. Bem, sempre haveria a soluo de poder de vez
em quando ir ao banheiro, o que faria o tempo passar mais depressa. Mas, com a prtica de ser amado, j de antemo o constrangia que a prima, uma estranha para ele,
encarasse com infinito carinho as suas idas ao banheiro. De um modo geral o mecanismo de sua vida se tornara motivo de ternura. Bem, era tambm verdade que, quanto
a ir ao banheiro, a soluo podia ser a de no ir nenhuma vez ao banheiro. Mas no s seria, durante um dia inteiro, irrealizvel como - como ele no queria ser
julgado "um menino que no vai ao banheiro" - isso tambm no apresentava vantagem. Sua prima, estabilizada pela permanente vontade de ter filhos, teria, na no
ida ao banheiro, uma pista falsa de grande amor.
Durante a semana que precedeu "o dia inteiro", no  que ele sofresse com as prprias tergiversaes. Pois o passo que muitos no chegam a dar ele j havia dado:
aceitara a incerteza, e lidava com os componentes da incerteza com uma concentrao de quem examina atravs das lentes de um microscpio.
 medida que, durante a semana, as inspiraes ligeiramente convulsivas se sucediam, elas foram gradualmente mudando de nvel. Abandonou o problema de decidir que
elementos daria  prima para que ela por sua vez lhe desse temporariamente a certeza de "quem ele era". Abandonou essas cogitaes e passou a previamente querer
decidir sobre o cheiro da casa da prima, sobre o tamanho do pequeno quintal onde brincaria, sobre as gavetas que abriria enquanto ela no visse. E finalmente entrou
no campo da prima propriamente dita. De que modo devia encarar o amor que a prima tinha por ele?
No entanto, negligenciara um detalhe: a prima tinha um dente de ouro, do lado esquerdo.
E foi isso - ao finalmente entrar na casa da prima - foi isso que num s instante desequilibrou toda a construo antecipada.
O resto do dia poderia ter sido chamado de horrvel, se o menino tivesse a tendncia de pr as coisas em termos de horrvel ou no horrvel. Ou poderia se chamar
de "deslumbrante", se ele fosse daqueles que esperam que as coisas o sejam ou no.
Houve o dente de ouro, com o qual ele no havia contado. Mas, com a segurana que ele encontrava na idia de uma imprevisibilidade permanente, tanto que at usava
culos, no se tornou inseguro pelo fato de encontrar logo de incio algo com que no contara.
Em seguida a surpresa do amor da prima.  que o amor da prima no comeou por ser evidente, ao contrrio do que ele imaginara. Ela o recebera com uma naturalidade
que inicialmente o insultara, mas logo depois no o insultara mais. Ela foi logo dizendo que ia arrumar a casa que ele podia ir brincando. O que deu ao menino, assim
de chofre, um dia inteiro vazio e cheio de sol.
L pelas tantas, limpando os culos, tentou, embora com certa iseno, o golpe da inteligncia e fez uma observao sobre as plantas do quintal. Pois quando ele
dizia alto uma observao, ele era julgado muito observador. Mas sua fria observao sobre as plantas recebeu em resposta um "pois ", entre vassouradas no cho.
Ento foi ao banheiro onde resolveu que, j que tudo falhara, ele iria brincar de "no ser julgado": por um dia inteiro ele no seria nada, simplesmente no seria.
E abriu a porta num safano de liberdade.
Mas  medida que o sol subia, a presso delicada do amor da prima foi se fazendo sentir. E quando ele se deu conta, era um amado. Na hora do almoo, a comida foi
puro amor errado e estvel: sob os olhos ternos da prima, ele se adaptou com curiosidade ao gosto estranho daquela comida, talvez marca de azeite diferente, adaptou-se
ao amor de uma mulher, amor novo que no parecia com o amor dos outros adultos: era um amor pedindo realizao, pois faltava  prima a gravidez, que j  em si um
amor materno realizado. Mas era um amor sem a prvia gravidez. Era um amor pedindo, a posteriori, a concepo. Enfim, o amor impossvel.
O dia inteiro o amor exigindo um passado que redimisse o presente e o futuro. O dia inteiro, sem uma palavra, ela exigindo dele que ele tivesse nascido no ventre
dela. A prima no queria nada dele, seno isso. Ela queria do menino de culos que ela no fosse uma mulher sem filhos. Nesse dia, pois, ele conheceu uma das raras
formas de estabilidade: a estabilidade do desejo irrealizvel. A estabilidade do ideal inatingvel. Pela primeira vez, ele, que era um ser votado  moderao, pela
primeira vez sentiu-se atrado pelo imoderado: atrao pelo extremo impossvel. Numa palavra, pelo impossvel. E pela primeira vez teve ento amor pela paixo.
E foi como se a miopia passasse e ele visse claramente o mundo. O relance mais profundo e simples que teve da espcie de universo em que vivia e onde viveria. No
um relance de pensamento. Foi apenas como se ele tivesse tirado os culos, e a miopia mesmo  que o fizesse enxergar. Talvez tenha sido a partir de ento que pegou
um hbito para o resto da vida: cada vez que a confuso aumentava e ele enxergava pouco, tirava os culos sob o pretexto de limp-los e, sem culos, fitava o interlocutor
com uma fixidez reverberada de cego.


A QUINTA HISTRIA

Esta histria poderia chamar-se "As Esttuas". Outro nome possvel  "O Assassinato". E tambm "Como Matar Baratas". Farei ento pelo menos trs histrias, verdadeiras,
porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma nica, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.
A primeira, "Como Matar Baratas", comea assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como mat-las. Que misturasse em partes
iguais acar, farinha e gesso. A farinha e o acar as atrairiam, o gesso esturricaria o de dentro delas. Assim fiz. Morreram.
A outra histria  a primeira mesmo e chama-se "O Assassinato". Comea assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E ento entra o assassinato.
A verdade  que s em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar trreo e escalavam os canos do edifcio at o nosso lar. S
na hora de preparar a mistura  que elas se tornaram minhas tambm. Em nosso nome, ento, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentrao um pouco mais intensa.
Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisveis e ningum acreditaria no mal secreto que roa casa to tranqila. Mas se elas, como
os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu
prprio mal secreto me guiavam. Agora eu s queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha.
E eis que a receita estava pronta, to branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o p at que este mais parecia fazer parte da natureza. De
minha cama, no silncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma at a rea de servio onde o escuro dormia, s uma toalha alerta no varal. Acordei horas
depois em sobressalto de atraso. J era de madrugada. Atravessei a cozinha. No cho da rea I estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso
nome, amanhecia. No morro um galo cantou.
A terceira histria que ora se inicia  a das "Esttuas". Comea dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo at o ponto em que,
de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu est a rea na sua perspectiva de ladrilhos. E na escurido da aurora, um arroxeado
que distancia tudo, distingo a meus ps sombras e brancuras: dezenas de esttuas se espalham rgidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas
de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que no se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer
em Pompia. Sei como foi esta ltima noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso ter endurecido to lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos
cada vez mais penosos, tero sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. At que de pedra se tornam, em espanto de inocncia,
e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras - subitamente assaltadas pelo prprio mago, sem nem sequer ter tido a intuio de um molde interno que se petrificava!
- essas de sbito se cristalizam, assim como a palavra  cortada da boca: eu te... Elas que, usando o nome de amor em vo, na noite de vero cantavam. Enquanto aquela
ali, a de antena marrom suja de branco, ter adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por no ter sabido usar as coisas com a graa gratuita do em vo:
" que olhei demais para dentro de mim!  que olhei demais para dentro de..." - de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra
antena de barata morta freme seca  brisa. Da histria anterior canta o galo.
A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Comea como se sabe: queixei-me de baratas. Vai at o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho
para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se- uma populao lenta e viva em fila-indiana. Eu iria ento renovar todas as noites o acar letal? como quem
j no dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonmbula at o pavilho? no vcio de ir ao encontro das esttuas que minha noite suada
erguia. Estremeci de mau prazer  viso daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci tambm ao aviso do gesso que seca: o vcio de viver que rebentaria meu molde
interno. spero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifcio: eu ou minha alma.
Escolhi. E hoje ostento secretamente no corao uma placa de virtude: "Esta casa foi dedetizada".
A quinta histria chama-se "Leibnitz e a Transcendncia do Amor na Polinsia". Comea assim: queixei-me de baratas.


UMA AMIZADE SINCERA

No  que fssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no ltimo ano da escola. Desde esse momento estvamos juntos a qualquer hora. H tanto tempo precisvamos
de um amigo que nada havia que no confissemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que no podamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro,
marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentamo-nos to contentes como se nos tivssemos presenteado a ns mesmos. Esse estado de comunicao contnua chegou
a tal exaltao que, no dia em que nada tnhamos a nos confiar, procurvamos com alguma aflio um assunto. S que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer
um no caberia a veemncia de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.
J nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbao entre ns. s vezes um telefonava, encontrvamo-nos, e nada tnhamos a nos dizer. ramos muito jovens
e no sabamos ficar calados. De incio, quando comeou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sabamos que j estvamos adulterando o ncleo da
amizade. Tentar falar sobre nossas mtuas namoradas tambm estava fora de cogitao, pois um homem no falava de seus amores. Experimentamos ficar calados - mas
tornvamo-nos inquietos logo depois de nos separarmos.
Minha solido, na volta de tais encontros, era grande e rida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais
pura.  procura desta, eu comeava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes. Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Tambm ele,
eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.
Foi quando, tendo minha famlia se mudado para So Paulo, e ele morando sozinho, pois sua famlia era do Piau, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento,
que ficara sob a minha guarda. Que rebulio de alma. Radiantes, arrumvamos nossos livros e discos, preparvamos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo
pronto - eis-nos dentro de casa, de braos abanando, mudos, cheios apenas de amizade.
Queramos tanto salvar o outro. Amizade  matria de salvao.
Mas todos os problemas j tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tnhamos apenas essa coisa que havamos procurado sedentos at ento e enfim encontrado:
uma amizade sincera. nico modo, sabamos, e com que amargor sabamos, de sair da solido que um esprito tem no corpo.
Mas como se nos revelava sinttica a amizade. Como se quisssemos espalhar em longo discurso um trusmo que uma palavra esgotaria. Nossa amizade era to insolvel
como a soma de dois nmeros: intil querer desenvolver para mais de um momento a certeza de que dois e trs so cinco.
Tentamos organizar algumas farras no apartamento, mas no s os vizinhos reclamaram como no adiantou.
Se ao menos pudssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade, nem acreditvamos em provas de uma amizade que delas no precisava. O mais que podamos
fazer era o que fazamos: saber que ramos amigos. O que no bastava para encher os dias, sobretudo as longas frias.
Data dessas frias o comeo da verdadeira aflio.
Ele, a quem eu nada podia dar seno minha sinceridade, ele passou a ser uma acusao de minha pobreza. Alm do mais, a solido de um ao lado do outro, ouvindo msica
ou lendo, era muito maior do que quando estvamos sozinhos. E, mais que maior, incmoda. No havia paz. Indo depois cada um para seu quarto, com alvio nem nos olhvamos.
 verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma trgua que nos deu mais esperanas do que em realidade caberia. Foi quando meu amigo teve uma pequena questo
com a Prefeitura. No  que fosse grave, mas ns a tornamos para melhor us-la. Porque ento j tnhamos cado na facilidade de prestar favores. Andei entusiasmado
pelos escritrios dos conhecidos de minha famlia, arranjando pistoles para meu amigo. E quando comeou a fase de selar papis, corri por toda a cidade - posso
dizer em conscincia que no houve firma que se reconhecesse sem ser atravs de minha mo.
Nessa poca encontrvamo-nos de noite em casa, exaustos e animados: contvamos as faanhas do dia, planejvamos os ataques seguintes. No aprofundvamos muito o
que estava sucedendo, bastava que tudo isso tivesse o cunho da amizade. Pensei compreender por que os noivos se presenteiam, por que o marido faz questo de dar
conforto  esposa, e esta prepara-lhe afanada o alimento, por que a me exagera nos cuidados ao filho. Foi, alis, nesse perodo que, com algum sacrifcio, dei um
pequeno broche de ouro quela que  hoje minha mulher. S muito depois eu ia compreender que estar tambm  dar.
Encerrada a questo com a Prefeitura - seja dito, de passagem, com vitria nossa - continuamos um ao lado do outro, sem encontrar aquela palavra que cederia a alma.
Cederia a alma? mas afinal de contas quem queria ceder a alma? Ora essa.
Afinal o que queramos? Nada. Estvamos fatigados, desiludidos.
A pretexto de frias com minha famlia, separamo-nos. Alis ele tambm ia ao Piau. Um aperto de mo comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabamos que no nos
veramos mais, seno por acaso. Mais que isso: que no queramos nos rever. E sabamos tambm que ramos amigos. Amigos sinceros.


OS OBEDIENTES

Trata-se de uma situao simples, um fato a contar e esquecer.
Mas se algum comete a imprudncia de parar um instante a mais do que deveria, um p afunda dentro e fica-se comprometido. Desde esse instante em que tambm ns 
nos arriscamos, j no se trata mais de um fato a contar, comeam a faltar as palavras que no o trairiam. A essa altura, afundados demais, o fato deixou de ser 
um fato para se tornar apenas a sua difusa repercusso. Que, se for retardada demais, vem um dia explodir como nesta tarde de domingo, quando h semanas no chove 
e quando, como hoje, a beleza ressecada persiste embora em beleza. Diante da qual assumo uma gravidade como diante de um tmulo. A essa altura, por onde anda o fato 
inicial? ele se tornou esta tarde. Sem saber como lidar com ela, hesito em ser agressiva ou recolher-me um pouco ferida. O fato inicial est suspenso na poeira ensolarada 
deste domingo - at que me chamam ao telefone e num salto vou lamber grata a mo de quem me ama e me liberta.
Cronologicamente a situao era a seguinte: um homem e uma mulher estavam casados.
J em constatar este fato, meu p afundou dentro. Fui obrigada a pensar em alguma coisa. Mesmo que eu nada mais dissesse, e encerrasse a histria com esta constatao, 
j me teria comprometido com os meus mais desconhecveis pensamentos. J seria como se eu tivesse visto, risco negro sobre fundo branco, um homem e uma mulher. E 
nesse fundo branco meus olhos se fixariam j tendo bastante o que ver, pois toda palavra tem a sua sombra.
Esse homem e essa mulher comearam - sem nenhum objetivo de ir longe demais, e no se sabe levados por que necessidade que pessoas tm - comearam a tentar viver 
mais intensamente.  procura do destino que nos precede? e ao qual o instinto quer nos levar? instinto?!
A tentativa de viver mais intensamente levou-os, por sua vez, numa espcie de constante verificao de receita e despesa, a tentar pesar o que era e o que no era 
importante. Isso eles o faziam a modo deles: com falta de jeito e de experincia, com modstia. Eles tateavam. Num vcio por ambos descoberto tarde demais na vida, 
cada qual pelo seu lado tentava continuamente distinguir o que era do que no era essencial, isto , eles nunca usariam a palavra essencial, que no pertencia a 
seu ambiente. Mas de nada adiantava o vago esforo quase constrangido que faziam: a trama lhes escapava diariamente. S, por exemplo, olhando para o dia passado 
 que tinham a impresso de ter - de algum modo e por assim dizer  revelia deles, e por isso sem mrito - a impresso de ter vivido. Mas ento era de noite, eles 
calavam os chinelos e era de noite.
Isso tudo no chegava a formar uma situao para o casal. Quer dizer, algo que cada um pudesse contar mesmo a si prprio na hora em que cada um se virava na cama 
para um lado e, por um segundo antes de dormir, ficava de olhos abertos. E pessoas precisam tanto poder contar a histria delas mesmas. Eles no tinham o que contar. 
Com um suspiro de conforto, fechavam os olhos e dormiam agitados. E quando faziam o balano de suas vidas, nem ao menos podiam nele incluir essa tentativa de viver 
mais intensamente, e descont-la, como em imposto de renda. Balano que pouco a pouco comeavam a fazer com maior freqncia, mesmo sem o equipamento tcnico de 
uma terminologia adequada a pensamentos. Se se tratava de uma situao, no chegava a ser uma situao de que viver ostensivamente.
Mas no era apenas assim que sucedia. Na verdade tambm estavam calmos porque "no conduzir", "no inventar", "no errar" lhes era, muito mais que um hbito, um 
ponto de honra assumido tacitamente. Eles nunca se lembrariam de desobedecer.
Tinham a compenetrao briosa que lhes viera da conscincia nobre de serem duas pessoas entre milhes iguais. "Ser um igual" fora o papel que lhes coubera, e a tarefa 
a eles entregue. Os dois, condecorados, graves, correspondiam grata e civicamente  confiana que os iguais haviam depositado neles. Pertenciam a uma casta. O papel 
que cumpriam, com certa emoo e com dignidade, era o de pessoas annimas, o de filhos de Deus, como num clube de pessoas.
Talvez apenas devido  passagem insistente do tempo tudo isso comeara, porm, a se tornar dirio, dirio, dirio. s vezes arfante. (Tanto o homem como a mulher 
j tinham iniciado a idade crtica.) Eles abriam as janelas e diziam que fazia muito calor. Sem que vivessem propriamente no tdio, era como se nunca lhes mandassem 
notcias. O tdio, alis, fazia parte de uma vida de sentimentos honestos.
Mas, enfim, como isso tudo no lhes era compreensvel, e achava-se muitos e muitos pontos acima deles, e se fosse expresso em palavras eles no o reconheceriam - 
tudo isso, reunido e considerado j como passado, assemelhava-se  vida irremedivel.  qual eles se submetiam com um silncio de multido e com o ar um pouco magoado 
que tm os homens de boa-vontade. Assemelhava-se  vida irremedivel para a qual Deus nos quis.
Vida irremedivel, mas no concreta. Na verdade era uma vida de sonho. s vezes, quando falavam de algum excntrico, diziam com a benevolncia que uma classe tem 
por outra: "Ah, esse leva uma vida de poeta". Pode-se talvez dizer, aproveitando as poucas palavras que se conheceram do casal, pode-se dizer que ambos levavam, 
menos a extravagncia, uma vida de mau poeta: vida de sonho.
No, no  verdade. No era uma vida de sonho, pois este jamais os orientara. Mas de irrealidade. Embora houvesse momentos em que de repente, por um motivo ou por 
outro, eles afundassem na realidade. E ento lhes parecia ter tocado num fundo de onde ningum pode passar.
Como, por exemplo, quando o marido voltava para casa mais cedo do que de hbito e a esposa ainda no havia regressado de alguma compra ou visita. Para o marido interrompia-se 
ento uma corrente. Ele se sentava cuidadoso para ler o jornal, dentro de um silncio to calado que mesmo uma pessoa morta ao lado quebraria. Ele fingindo com severa 
honestidade uma ateno minuciosa ao jornal, os ouvidos atentos. Nesse momento  que o marido tocava no fundo com ps surpreendidos. No poderia permanecer muito 
tempo assim, sem risco de afogar-se, pois tocar no fundo tambm significa ter a gua acima da cabea. Eram assim os seus momentos concretos. O que fazia com que 
ele, lgico e sensato, se safasse depressa. Safava-se depressa, embora curiosamente a contragosto, pois a ausncia da esposa era uma tal promessa de prazer perigoso 
que ele experimentava o que seria a desobedincia. Safava-se a contragosto mas sem discutir, obedecendo ao que dele esperavam. No era um desertor que trasse a 
confiana dos outros. Alm do mais, se esta  que era a realidade, no havia como viver nela ou dela.
A esposa, esta tocava na realidade com mais freqncia, pois tinha mais lazer e menos ao que chamar de fatos, assim como colegas de trabalho, nibus cheio, palavras 
administrativas. Sentava-se para emendar roupa, e pouco a pouco vinha vindo a realidade. Era intolervel enquanto durava a sensao de estar sentada a emendar roupa. 
O modo sbito do ponto cair no i, essa maneira de caber inteiramente no que existia e de tudo ficar to nitidamente aquilo mesmo - era intolervel. Mas, quando passava, 
era como se a esposa tivesse bebido de um futuro possvel. Aos poucos o futuro dessa mulher passou a se tornar algo que ela trazia para o presente, alguma coisa 
meditativa e secreta.
Era surpreendente de como os dois no eram tocados, por exemplo, pela poltica, pela mudana de governo, pela evoluo de um modo geral, embora tambm falassem s 
vezes a respeito, como todo o mundo. Na verdade eram pessoas to reservadas que se surpreenderiam, lisonjeadas, se alguma vez lhes dissessem que eram reservadas. 
Nunca lhes ocorreria que se chamava assim. Talvez entendessem mais se lhes dissessem: "vocs simbolizam a nossa reserva militar". Deles alguns conhecidos disseram, 
depois que tudo sucedeu: eram boa gente. E nada mais havia a dizer, pois que o eram.
Nada mais havia a dizer. Faltava-lhes o peso de um erro grave, que tantas vezes  o que abre por acaso uma porta. Alguma vez eles tinham levado muito a srio alguma 
coisa. Eles eram obedientes.
Tambm no apenas por submisso: como num soneto, era obedincia por amor  simetria. A simetria lhes era a arte possvel.
Como foi que cada um deles chegou  concluso de que, sozinho, sem o outro, viveria mais - seria caminho longo para se reconstruir, e de intil trabalho, pois de 
vrios cantos muitos j chegaram ao mesmo ponto.
A esposa, sob a fantasia contnua, no s chegou temerariamente a essa concluso como esta transformou sua vida em mais alargada e perplexa, em mais rica, e at 
supersticiosa. Cada coisa parecia o sinal de outra coisa, tudo era simblico, e mesmo um pouco esprita dentro do que o catolicismo permitiria. No s ela passou 
temerariamente a isso como - provocada exclusivamente pelo fato de ser mulher - passou a pensar que um outro homem a salvaria. O que no chegava a ser um absurdo. 
Ela sabia que no era. Ter meia razo a confundia, mergulhava-a em meditao.
O marido, influenciado pelo ambiente de masculinidade aflita em que vivia, e pela sua prpria, que era tmida mas efetiva, comeou a pensar que muitas aventuras 
amorosas seriam a vida.
Sonhadores, eles passaram a sofrer sonhadores, era herico suportar. Calados quanto ao entrevisto por cada um, discordando quanto  hora mais conveniente de jantar, 
um servindo de sacrifcio para o outro, amor  sacrifcio.
Assim chegamos ao dia em que, h muito tragada pelo sonho, a mulher, tendo dado uma mordida numa ma, sentiu quebrar-se um dente da frente. Com a ma ainda na 
mo e olhando-se perto demais no espelho do banheiro - e deste modo perdendo de todo a perspectiva - viu uma cara plida, de meia-idade, com um dente quebrado, e 
os prprios olhos... Tocando o fundo, e com a gua j pelo pescoo, com cinqenta e tantos anos, sem um bilhete, em vez de ir ao dentista, jogou-se pela janela do 
apartamento, pessoa pela qual tanta gratido se poderia sentir, reserva militar e sustentculo de nossa desobedincia. Quanto a ele, uma vez seco o leito do rio 
e sem nenhuma gua que o afogasse, ele andava sobre o fundo sem olhar para o cho, expedito como se usasse bengala. Seco inesperadamente o leito do rio, andava perplexo 
e sem perigo sobre o fundo com uma lepidez de quem vai cair de bruos mais adiante.


A LEGIO ESTRANGEIRA

Se me perguntassem sobre Oflia e seus pais, teria respondido com o decoro da honestidade: mal os conheci. Diante do mesmo jri ao qual responderia: mal me conheo
- e para cada cara de jurado diria com o mesmo lmpido olhar de quem se hipnotizou para a obedincia: mal vos conheo. Mas s vezes acordo do longo sono e volto-me
com docilidade para o delicado abismo da desordem.
Estou tentando falar sobre aquela famlia que sumiu h anos sem deixar traos em mim, e de quem me ficara apenas uma imagem esverdeada pela distncia. Meu inesperado
consentimento em saber foi hoje provocado pelo fato de ter aparecido em casa um pinto. Veio trazido por mo que queria ter o gosto de me dar coisa nascida. Ao desengradarmos
o pinto, sua graa pegou-nos em flagrante. Amanh  Natal, mas o momento de silncio que espero o ano inteiro veio um dia antes de Cristo nascer. Coisa piando por
si prpria desperta a suavssima curiosidade que junto de uma manjedoura  adorao. Ora, disse meu marido, e essa agora. Sentira-se grande demais. Sujos, de boca
aberta, os meninos se aproximaram. Eu, um pouco ousada, fiquei feliz. O pinto, esse piava. Mas Natal  amanh, disse acanhado o menino mais velho. Sorramos desamparados,
curiosos.
Mas sentimentos so gua de um instante. Em breve - como a mesma gua j  outra quando o sol a deixa muito leve, e j outra quando se enerva tentando morder uma
pedra, e outra ainda no p que mergulha - em breve j no tnhamos no rosto apenas aura e iluminao. Em torno do pinto aflito, estvamos bons e ansiosos. A meu
marido, a bondade deixa rspido e severo, ao que j nos habituamos; ele se crucifica um pouco. Nos meninos, que so mais graves, a bondade  um ardor. A mim, a bondade
me intimida. Da a pouco a mesma gua era outra, e olhvamos contrafeitos, enredados na falta de habilidade de sermos bons. E, a gua j outra, pouco a pouco tnhamos
no rosto a responsabilidade de uma aspirao, o corao pesado de um amor que j no era mais livre. Tambm nos desajeitava o medo que o pinto tinha de ns; ali
estvamos, e nenhum merecia comparecer a um pinto; a cada piar, ele nos espargia para fora. A cada piar, reduzia-nos a no fazer nada. A constncia de seu pavor
acusava-nos de uma alegria leviana que a essa hora nem alegria mais era, era amolao. Passara o instante do pinto, e ele, cada vez mais urgente, expulsava-nos sem
nos largar. Ns, os adultos, j teramos encerrado o sentimento. Mas nos meninos havia uma indignao silenciosa, e a acusao deles  que nada fazamos pelo pinto
ou pela humanidade. A ns, pai e me, o piar cada vez mais ininterrupto j nos levara a uma resignao constrangida: as coisas so assim mesmo. S que nunca tnhamos
contado isso aos meninos, tnhamos vergonha; e adivamos indefinidamente o momento de cham-los e falar claro que as coisas so assim. Cada vez ficava mais difcil,
o silncio crescia, e eles empurravam um pouco o af com que queramos lhes dar, em troca, amor. Se nunca havamos conversado sobre as coisas, muito mais tivemos
naquele instante que esconder deles o sorriso que terminou nos vindo com o piar desesperado daquele bico, um sorriso como se a ns coubesse abenoar o fato de as
coisas serem assim mesmo, e tivssemos acabado de abeno-las.
O pinto, esse piava. Sobre a mesa envernizada ele no ousava um passo, um movimento, ele piava para dentro. Eu no sabia sequer onde cabia tanto terror numa coisa
que era s penas. Penas encobrindo o qu? meia dzia de ossos que se haviam reunido fracos para o qu? para o piar de um terror. Em silncio, em respeito  impossibilidade
de nos compreendermos, em respeito  revolta dos meninos contra ns, em silncio olhvamos sem muita pacincia. Era impossvel dar-lhe a palavra asseguradora que
o fizesse no ter medo, consolar coisa que por ter nascido se espanta. Como prometer-lhe o hbito? Pai e me, sabamos quo breve seria a vida do pinto. Tambm este
sabia, do modo como as coisas vivas sabem: atravs do susto profundo.
E enquanto isso, o pinto cheio de graa, coisa breve e amarela. Eu queria que tambm ele sentisse a graa de sua vida, assim como j pediram de ns, ele que era
a alegria dos outros, no a prpria. Que sentisse que era gratuito, nem sequer necessrio - um dos pintos tem que ser intil - s nascera para a glria de Deus,
ento fosse a alegria dos homens. Mas era amar o nosso amor querer que o pinto fosse feliz somente porque o amvamos. Eu sabia tambm que s me resolve o nascimento,
e o nosso era amor de quem se compraz em amar: eu me revolvia na graa de me ser dado amar, sinos, sinos repicavam porque sei adorar. Mas o pinto tremia, coisa de
terror, no de beleza.
O menino menor no suportou mais:
- Voc quer ser a me dele?
Eu disse que sim, em sobressalto. Eu era a enviada junto quela coisa que no compreendia a minha nica linguagem: eu estava amando sem ser amada. A misso era falvel,
e os olhos de quatro meninos aguardavam com a intransigncia da esperana o meu primeiro gesto de amor eficaz. Recuei um pouco, sorrindo toda solitria, olhei para
minha famlia, queria que eles sorrissem. Um homem e quatro meninos me fitavam, incrdulos e confiantes. Eu era a mulher da casa, o celeiro. Por que a impassibilidade
dos cinco, no entendi. Quantas vezes teria eu falhado para que, na minha hora de timidez, eles me olhassem. Tentei isolar-me do desafio dos cinco homens para tambm
eu esperar de mim e lembrar-me de como  o amor. Abri a boca, ia dizer-lhes a verdade: no sei como.
Mas se me viesse de noite uma mulher. Se ela segurasse no colo o filho. E dissesse: cure meu filho. Eu diria: como  que se faz? Ela responderia: cure meu filho.
Eu diria: tambm no sei. Ela responderia: cure meu filho. Ento - ento porque no sei fazer nada e porque no me lembro de nada e porque  de noite
- ento estendo a mo e salvo uma criana. Porque  de noite, porque estou sozinha na noite de outra pessoa, porque este silncio  muito grande para mim, porque
tenho duas mos para sacrificar a melhor delas e porque no tenho escolha.
Ento estendi a mo e peguei o pinto.
Foi nesse instante que revi Oflia. E nesse instante lembrei-me de que fora a testemunha de uma menina.
Mais tarde lembrei-me de como a vizinha, me de Oflia, era trigueira como uma hindu. Tinha olheiras arroxeadas que a embelezavam muito e davam-lhe um ar fatigado
que fazia os homens a olharem uma segunda vez. Um dia, no banco da praa, enquanto as crianas brincavam, ela me dissera com aquela sua cabea obstinada de quem
olha para o deserto: "Sempre quis tirar um curso de enfeitar bolos". Lembrei-me de que o marido - trigueiro tambm, como se se tivessem escolhido pela secura da
cor - queria subir na vida atravs de seu ramo de negcios: gerncia de hotis ou dono mesmo, nunca entendi bem. O que lhe dava uma dura polidez. Quando ramos forados
no elevador a contato mais prolongado, ele aceitava a troca de palavras num tom de arrogncia que trazia de lutas maiores. At chegarmos ao dcimo andar, a humildade
a que sua frieza me forara j o amansara um pouco; talvez chegasse em casa mais bem servido. Quanto  me de Oflia, ela temia que  fora de morarmos no mesmo
andar houvesse intimidade e, sem saber que tambm eu me resguardava, evitava-me. A nica intimidade fora a do banco do jardim, onde, com olheiras e boca fina, falara
sobre enfeitar bolos. Eu no soubera o que retrucar e terminara dizendo, para que soubesse que eu gostava dela, que o curso dos bolos me agradaria. Esse nico momento
mtuo afastara-nos ainda mais, por receio de um abuso de compreenso. A me de Oflia chegara mesmo a ser grosseira no elevador: no dia seguinte eu estava com um
dos meninos pela mo, o elevador descia devagar, e eu, opressa pelo silncio que,  outra, fortificava - dissera num tom de agrado que no mesmo instante tambm a
mim repugnara:
- Estamos indo para a casa da av dele. E ela, para meu espanto:
- No perguntei nada, nunca me meto na vida dos vizinhos.
- Ora, disse eu baixo.
O que, ali mesmo no elevador, me fizera pensar que eu estava pagando por ter sido sua confidente de um minuto no banco do jardim. O que, por sua vez, me fizera pensar
que ela talvez julgasse me ter confiado mais do que na realidade confiara. O que, por sua vez, me fizera pensar se na verdade ela no me dissera mais do que ns
duas percebramos. Enquanto o elevador continuava a descer e parar, eu reconstitura seu ar insistente e sonhador no banco do jardim - e olhara com olhos novos para
a beleza altaneira da me de Oflia. "No contarei a ningum que voc quer enfeitar bolos", pensei olhando-a rapidamente.
O pai agressivo, a me se guardando. Famlia soberba. Tratavam-me como se eu j morasse no futuro hotel deles e ofendesse-os com o pagamento que exigiam. Sobretudo
tratavam-me como se nem eu acreditasse, nem eles pudessem provar quem eles eram. E quem eram eles? indagava-me s vezes. Por que a bofetada que estava impressa no
rosto deles, por que a dinastia exilada? E tanto no me perdoavam que eu agia no perdoada: se os encontrava na rua, fora do setor que me era circunscrito, sobressaltava-me,
surpreendida em delito: recuava para eles passarem, dava-lhes a vez - os trs trigueiros e bem vestidos passavam como se fossem  missa, aquela famlia que vivia
sob o signo de um orgulho ou de um martrio oculto, arroxeados como flores da Paixo. Famlia antiga, aquela.
Mas o contato se fez atravs da filha. Era uma menina belssima, com longos cachos duros, Oflia, com olheiras iguais s da me, as mesmas gengivas um pouco roxas,
a mesma boca fina de quem se cortou. Mas essa, a boca, falava. Deu para aparecer em casa. Tocava a campainha, eu abria a portinhola, no via nada, ouvia uma voz
decidida:
- Sou eu, Oflia Maria dos Santos Aguiar.
Desanimada, eu abria a porta. Oflia entrava. A visita era para mim, meus dois meninos daquele tempo eram pequenos demais para sua sabedoria pausada. Eu era grande
e ocupada, mas era para mim a visita: com uma ateno toda interior, como se para tudo houvesse um tempo, levantava com cuidado a saia de babados, sentava-se, ajeitava
os babados - e s ento me olhava. Eu, que ento copiava o arquivo do escritrio, eu trabalhava e ouvia. Oflia, ela dava-me conselhos. Tinha opinio formada a respeito
de tudo. Tudo o que eu fazia era um pouco errado, na sua opinio. Dizia "na minha opinio" em tom ressentido, como se eu lhe devesse ter pedido conselhos e, j que
eu no pedia, ela dava. Com seus oito anos altivos e bem vividos, dizia que na sua opinio eu no criava bem os meninos; pois meninos quando se d a mo querem subir
na cabea. Banana no se mistura com leite. Mata. Mas  claro a senhora faz o que quiser; cada um sabe de si. No era mais hora de estar de robe; sua me mudava
de roupa logo que saa da cama, mas cada um termina levando a vida que quer. Se eu explicava que era porque ainda no tomara banho, Oflia ficava quieta, olhando-me
atenta. Com alguma suavidade, ento, com alguma pacincia, acrescentava que no era hora de ainda no ter tomado banho. Nunca era minha a ltima palavra. Que ltima
palavra poderia eu dar quando ela me dizia: empada de legume no tem tampa. Uma tarde numa padaria vi-me inesperadamente diante da verdade intil: I estava sem
tampa uma fila de empadas de legumes. "Mas eu lhe avisei", ouvi-a como se ela estivesse presente. Com seus cachos e babados, com sua delicadeza firme, era uma visitao
na sala ainda desarrumada. O que valia  que dizia muita tolice tambm, o que, no meu desalento, me fazia sorrir desesperada.
A pior parte da visitao era a do silncio. Eu erguia os olhos da mquina, e no saberia h quanto tempo Oflia me olhava em silncio. O que em mim pode atrair
essa menina? exasperava-me eu. Uma vez, depois de seu longo silncio, dissera-me tranqila: a senhora  esquisita. E eu, atingida em cheio no rosto sem cobertura
- logo no rosto que sendo o nosso avesso  coisa to sensvel - eu, atingida em cheio, pensara com raiva: pois vai ver que  esse esquisito mesmo que voc procura.
Ela que estava toda coberta, e tinha me coberta, e pai coberto.
Eu ainda preferia, pois, conselho e crtica. J menos tolervel era o seu hbito de usar a palavra portanto com que ligava as frases numa concatenao que no falhava.
Dissera-me que eu comprara legumes demais na feira - portanto - no iam caber na geladeira pequena e - portanto - murchariam antes da prxima feira. Dias depois
eu olhava os legumes murchos. Portanto, sim. Outra vez vira menos legumes espalhados pela mesa da cozinha, eu que disfaradamente obedecera. Oflia olhara, olhara.
Parecia prestes a no dizer nada. Eu esperava de p, agressiva, muda. Oflia dissera sem nenhuma nfase:
-  pouco at a feira que vem.
Os legumes acabaram pelo meio da semana. Como  que ela sabe? perguntava-me eu curiosa. "Portanto" seria a resposta talvez. Por que eu nunca, nunca sabia? Por que
sabia ela de tudo, por que era a terra to familiar a ela, e eu sem cobertura? Portanto? Portanto.
Uma vez Oflia errou. Geografia - disse sentada defronte a mim com os dedos cruzados no colo -  um modo de estudar. No chegava a ser erro, era mais um leve estrabismo
de pensamento - mas para mim teve a graa de uma queda, e antes que o instante passasse, eu por dentro lhe disse:  assim mesmo que se faz, isso! v devagar assim,
e um dia vai ser mais fcil ou mais difcil para voc, mas  assim, v errando, bem, bem devagar.
Uma manh, no meio de sua conversa, avisou-me autoritria: "Vou em casa ver uma coisa mas volto logo". Arrisquei: "Se voc est muito ocupada, no precisa voltar".
Oflia olhou-me muda, inquisitiva. "Existe uma menina muito antiptica", pensei bem claro para que ela visse a frase toda exposta no meu rosto. Ela sustentou o olhar.
O olhar onde - com surpresa e desolao - vi fidelidade, paciente confiana em mim e o silncio de quem nunca falou. Quando  que eu lhe jogara um osso para que
ela me seguisse muda pelo resto da vida? Desviei os olhos. Ela suspirou tranqila. E disse com maior deciso ainda: "Volto logo". Que  que ela quer? - agitei-me
- por que atraio pessoas que nem sequer gostam de mim?
Uma vez, quando Oflia estava sentada, tocaram a campainha. Fui abrir e deparei com a me de Oflia. Vinha protetora, exigente:
- Por acaso Oflia Maria est a?
- Est, escusei-me como se a tivesse raptado.
- No faa mais isso, disse ela para Oflia num tom que me era dirigido; depois voltou-se para mim e, subitamente ofendida: - Desculpe o incmodo.
- Nem pense nisso, essa menina  to inteligente.
A me olhou-me em leve surpresa - mas a suspeita passou-lhe pelos olhos. E neles eu li: que  que voc quer dela?
- J proibi Oflia Maria de incomodar a senhora, disse agora em desconfiana aberta. E segurando firme a mo da menina para lev-la, parecia defend-la contra mim.
Com uma sensao de decadncia, espiei pela portinhola entreaberta sem rudos: I iam as duas pelo corredor que levava ao apartamento delas, a me abrigando a filha
com murmrios de repreenso amorosa, a filha impassvel a fremir cachos e babados. Ao fechar a portinhola percebi que ainda no mudara de roupa e, portanto, assim
fora vista pela me que mudava de roupa ao sair da cama. Pensei com alguma desenvoltura: bem, agora a me me despreza, portanto estou livre de a menina voltar.
Mas voltava, sim. Eu era atraente demais para aquela criana. Tinha defeitos bastantes para seus conselhos, era terreno para o desenvolvimento de sua severidade,
j me tornara o domnio daquela minha escrava: ela voltava, sim, levantava os babados, sentava-se.
Por essa ocasio, sendo perto da Pscoa, a feira estava cheia de pintos, e eu trouxe um para os meninos. Brincamos, depois ele ficou pela cozinha, os meninos pela
rua. Mais tarde Oflia aparecia para a visita. Eu batia a mquina, de vez em quando aquiescia distrada. A voz igual da menina, voz de quem fala de cor, me entontecia
um pouco, entrava por entre as palavras escritas; ela dizia, ela dizia.
Foi quando me pareceu que de repente tudo parara. Sentindo falta do suplcio, olhei-a enevoada. Oflia Maria estava de cabea a prumo, com os cachos inteiramente
imobilizados.
- Que  isso, disse.
- Isso o qu?
- Isso! disse inflexvel.
- Isso?
Ficaramos indefinidamente numa roda de "isso?" e "isso!", no fosse a fora excepcional daquela criana, que, sem uma palavra, apenas com a extrema autoridade do
olhar, me obrigasse a ouvir o que ela prpria ouvia. No silncio da ateno a que ela me forara, ouvi finalmente o fraco piar do pinto na cozinha.
-  o pinto.
- Pinto? disse desconfiadssima.
- Comprei um pinto, respondi resignada.
- Pinto! repetiu como se eu a tivesse insultado.
- Pinto.
E nisso ficaramos. No fosse certa coisa que vi e que antes nunca vira.
O que era? Mas, o que fosse, no estava mais ali. Um pinto faiscara um segundo em seus olhos e neles submergira para nunca ter existido. E a sombra se fizera. Uma
sombra profunda cobrindo a terra. Do instante em que involuntariamente sua boca estremecendo quase pensara "eu tambm quero", desse instante a escurido se adensara
no fundo dos olhos num desejo retrtil que, se tocassem, mais se fecharia como folha de dormideira. E que recuava diante do impossvel, o impossvel que se aproximara
e, em tentao, fora quase dela: o escuro dos olhos vacilou como um ouro. Uma astcia passou-lhe ento pelo rosto - se eu no estivesse ali, por astcia, ela roubaria
qualquer coisa. Nos olhos que pestanejaram  dissimulada sagacidade, nos olhos a grande tendncia  rapina. Olhou-me rpida, e era a inveja, voc tem tudo, e a censura,
porque no somos a mesma e eu terei um pinto, e a cobia - ela me queria para ela. Devagar fui me reclinando no espaldar da cadeira, sua inveja que desnudava minha
pobreza, e deixava minha pobreza pensativa; no estivesse eu ali, e ela roubava minha pobreza tambm; ela queria tudo. Depois que o tremor da cobia passou, o escuro
dos olhos sofreu todo: no era somente a um rosto sem cobertura que eu a expunha, agora eu a expusera ao melhor do mundo: a um pinto. Sem me verem, seus olhos quentes
me fitavam numa abstrao intensa que se punha em ntimo contato com minha intimidade. Alguma coisa acontecia que eu no conseguia entender a olho nu. E de novo
o desejo voltou. Dessa vez os olhos se angustiaram como se nada pudessem fazer com o resto do corpo que se desprendia independente. E mais se alargavam, espantados
com o esforo fsico da decomposio que dentro dela se fazia. A boca delicada ficou um pouco infantil, de um roxo pisado. Olhou para o teto - as olheiras davam-lhe
um ar de martrio supremo. Sem me mexer, eu a olhava. Eu sabia de grande incidncia de mortalidade infantil. Nela a grande pergunta me envolvia: vale a pena? No
sei, disse-lhe minha quietude cada vez maior, mas  assim. Ali, diante de meu silncio, ela estava se dando ao processo, e se me perguntava a grande pergunta, tinha
que ficar sem resposta. Tinha que se dar - por nada. Teria que ser. E por nada. Ela se agarrava em si, no querendo. Mas eu esperava. Eu sabia que ns somos aquilo
que tem de acontecer. Eu s podia servir-lhe a ela de silncio. E, deslumbrada de desentendimento, ouvia bater dentro de mim um corao que no era o meu. Diante
de meus olhos fascinados, ali diante de mim, como um ectoplasma, ela estava se transformando em criana.
No sem dor. Em silncio eu via a dor de sua alegria difcil. A lenta clica de um caracol. Ela passou devagar a lngua pelos lbios finos. (Me ajuda, disse seu
corpo na bipartio penosa. Estou ajudando, respondeu minha imobilidade.) A agonia lenta. Ela estava engrossando toda, a deformar-se com lentido. Por momentos os
olhos tornavam-se puros clios, numa avidez de ovo. E a boca de uma fome trmula. Quase sorria ento, como se estendida numa mesa de operao dissesse que no estava
doendo tanto. Ela no me perdia de vista: havia marcas de ps que ela no via, por ali algum j tinha andado, e ela adivinhava que eu tinha andado muito. Mais e
mais se deformava, quase idntica a si mesma. Arrisco? Deixo eu sentir?, perguntava-se nela. Sim, respondeu-se por mim.
E o meu primeiro sim embriagou-me. Sim, repetiu meu silncio para o dela, sim. Como na hora de meu filho nascer eu lhe dissera: sim. Eu tinha a ousadia de dizer
sim a Oflia, eu que sabia que tambm se morre em criana sem ningum perceber. Sim, repeti embriagada, porque o perigo maior no existe: quando se vai, se vai junto,
voc mesma sempre estar; isso, isso voc levar consigo para o que for ser.
A agonia de seu nascimento. At ento eu nunca vira a coragem. A coragem de ser o outro que se , a de nascer do prprio parto, e de largar no cho o corpo antigo.
E sem lhe terem respondido se valia a pena. "Eu", tentava dizer seu corpo molhado pelas guas. Suas npcias consigo mesma.
Oflia perguntou devagar, com recato pelo que lhe acontecia:
- E um pinto? No olhei para ela.
-  um pinto, sim.
Da cozinha vinha o fraco piar. Ficamos em silncio como se Jesus tivesse nascido. Oflia respirava, respirava.
- Um pintinho? certificou-se em dvida.
- Um pintinho, sim, disse eu guiando-a com cuidado para a vida.
- Ah, um pintinho, disse meditando.
- Um pintinho, disse eu sem brutaliz-la.
J h alguns minutos eu me achava diante de uma criana. Fizera-se a metamorfose.
- Ele est na cozinha.
- Na cozinha? repetiu fazendo-se de desentendida.
- Na cozinha, repeti pela primeira vez autoritria, sem acrescentar mais nada.
- Ah, na cozinha, disse Oflia muito fingida, e olhou para o teto.
Mas ela sofria. Com alguma vergonha notei afinal que estava me vingando. A outra sofria, fingia, olhava para o teto. A boca, as olheiras.
- Voc pode ir pra cozinha brincar com o pintinho.
- Eu...? perguntou sonsa.
- Mas s se voc quiser.
Sei que deveria ter mandado, para no exp-la  humilhao de querer tanto. Sei que no lhe deveria ter dado a escolha, e ento ela teria a desculpa de que fora
obrigada a obedecer. Mas naquele momento no era por vingana que eu lhe dava o tormento da liberdade.  que aquele passo, tambm aquele passo ela deveria dar sozinha.
Sozinha e agora. Ela  que teria de ir  montanha. Por que - confundia-me eu - por que estou tentando soprar minha vida na sua boca roxa? por que estou lhe dando
uma respirao? como ouso respirar dentro dela, se eu mesma... - somente para que ela ande, estou lhe dando os passos penosos? sopro-lhe minha vida s para que um
dia, exausta, ela por um instante sinta como se a montanha tivesse caminhado at ela?
Teria eu o direito. Mas no tinha escolha. Era uma emergncia como se os lbios da menina estivessem cada vez mais roxos.
- S v ver o pintinho se voc quiser, repeti ento com a extrema dureza de quem salva.
Ficamos nos defrontando, dessemelhantes, corpo separado de corpo; somente a hostilidade nos unia. Eu estava seca e inerte na cadeira para que a menina se fizesse
por dentro de outro ser, firme para que ela lutasse dentro de mim; cada vez mais forte  medida que Oflia precisasse me odiar e precisasse que eu resistisse ao
sofrimento de seu dio. No posso viver isso por voc - disse-lhe minha frieza. Sua luta se fazia cada vez mais prxima e em mim, como se aquele indivduo que nascera
extraordinariamente dotado de fora estivesse bebendo de minha fraqueza. Ao me usar ela me machucava com sua fora; ela me arranhava ao tentar agarrar-se s minhas
paredes lisas. Afinal sua voz soou em baixa e lenta raiva:
- Pois vou ver o pinto na cozinha.
- V sim, disse eu devagar.
Retirou-se pausada, procurava manter a dignidade das costas.
Da cozinha voltou imediatamente - estava espantada, sem pudor, mostrando na mo o pinto, e numa perplexidade que me indagava toda com os olhos:
-  um pintinho! disse.
Olhou-o na mo que se estendia, olhou-me, olhou de novo a mo - e de sbito encheu-se de um nervoso e de uma preocupao que me envolveram automaticamente em nervoso
e preocupao.
- Mas  um pintinho! disse, e imediatamente a censura passou-lhe pelos olhos como se eu no lhe tivesse dito quem piava.
Ri. Oflia olhou-me, ultrajada. E de repente - de repente riu. Ambas ento rimos, um pouco agudas.
Depois que rimos, Oflia ps o pinto no cho para andar. Se ele corria, ela ia atrs, parecia s deix-lo autnomo para sentir saudade; mas se ele se encolhia, pressurosa
ela o protegia, com pena de ele estar sob o seu domnio, "coitado dele, ele  meu"; e quando o segurava, era com mo torta pela delicadeza - era o amor, sim, o tortuoso
amor. Ele  muito pequeno, portanto precisa  de muito trato, a gente no pode fazer carinho porque tem os perigos mesmo; no deixe pegarem nele  toa, a senhora
faz o que quiser, mas milho  grande demais para o biquinho aberto dele; porque ele  molezinho, coitado, to novo, portanto a senhora no pode deixar seus filhos
fazerem carinho nele; s eu sei que carinho ele gosta; ele escorrega  toa, portanto cho de cozinha no  lugar para pintinho.
H muito tempo eu tentava de novo bater a mquina procurando recuperar o tempo perdido e Oflia me embalando, e aos poucos falando s para o pintinho, e amando de
amor. Pela primeira vez me largara, ela no era mais eu. Olhei-a, toda de ouro que ela estava, e o pinto todo de ouro, e os dois zumbiam como roca e fuso. Tambm
minha liberdade afinal, e sem ruptura; adeus, e eu sorria de saudade.
Muito depois percebi que era comigo que Oflia falava.
- Acho - acho que vou botar ele na cozinha.
- Pois v.
No vi quando foi, no vi quando voltou. Em algum momento, por acaso e distrada, senti h quanto tempo havia silncio. Olhei-a um instante. Estava sentada, de dedos
cruzados no colo. Sem saber exatamente por qu, olhei-a uma segunda vez:
- Que ?
- Eu...?
- Est sentindo alguma coisa?
- Eu...?
- Quer ir no banheiro?
- Eu...?
Desisti, voltei  mquina. Algum tempo depois ouvi a voz:
- Vou ter que ir para casa.
- Est certo.
- Se a senhora deixar. Olhei-a em surpresa:
- Ora, se voc quiser...
- Ento, disse, ento eu vou.
Foi andando devagar, cerrou a porta sem rudo. Fiquei olhando a porta fechada. Esquisita  voc, pensei. Voltei ao trabalho.
Mas no conseguia sair da mesma frase. Bem - pensei impaciente olhando o relgio - e agora o que ? Fiquei me indagando sem gosto, procurando em mim mesma o que
poderia estar me interrompendo. Quando j desistia, revi uma cara extremamente quieta: Oflia. Menos que uma idia passou-me ento pela cabea e, ao inesperado,
esta se inclinou para ouvir melhor o que eu sentia. Devagar empurrei a mquina. Relutante fui afastando devagar as cadeiras do caminho. At parar devagar  porta
da cozinha. No cho estava o pinto morto. Oflia! chamei num impulso pela menina fugida.
A uma distncia infinita eu via o cho. Oflia, tentei eu inutilmente atingir  distncia o corao da menina calada. Oh, no se assuste muito! s vezes a gente
mata por amor, mas juro que um dia a gente esquece, juro! a gente no ama bem, oua, repeti como se pudesse alcan-la antes que, desistindo de servir ao verdadeiro,
ela fosse altivamente servir ao nada. Eu que no me lembrara de lhe avisar que sem o medo havia o mundo. Mas juro que isso  a respirao. Eu estava muito cansada,
sentei-me no banco da cozinha.
Onde agora estou, batendo devagar o bolo de amanh. Sentada, como se durante todos esses anos eu tivesse com pacincia esperado na cozinha. Embaixo da mesa, estremece
o pinto de hoje. O amarelo  o mesmo, o bico  o mesmo. Como na Pscoa nos  prometido, em dezembro ele volta. Oflia  que no voltou: cresceu. Foi ser a princesa
hindu por quem no deserto sua tribo esperava.
